A tua relação com o dinheiro foi aprendida, quase sempre em casa, a ver como os teus pais lidavam com ele. Ninguém te sentou à mesa para te ensinar a gerir um ordenado. Aprendeste a olhar: quem pagava as contas, quem fugia delas, se o dinheiro era assunto de conversa ou de discussão. E o que se aprendeu pode ser aprendido de outra forma.
Isto ajuda a explicar um número que parece não bater certo. Segundo o 4.º Inquérito à Literacia Financeira do Banco de Portugal, 82,1% dos portugueses dizem ter alguma forma de controlar o orçamento. Só 53,9% conseguiram poupar no último ano. A maioria sabe o que devia fazer. O que falha está no fazer, e é aí que a relação com o dinheiro pesa mais do que qualquer folha de Excel.
Índice
De onde vem a nossa relação com o dinheiro?
Vem das coisas que viste e ouviste antes de ganhares o primeiro euro.
O psicólogo Brad Klontz chama-lhes guiões de dinheiro: crenças sobre o dinheiro que, segundo ele e a investigadora Sonya Britt, se formam na infância e passam de geração em geração dentro das famílias. Quase nunca damos por eles. Parecem a forma normal de ver as coisas, e por isso não os questionamos.
E não são inofensivos. Num estudo com 422 pessoas nos Estados Unidos, Klontz e Britt encontraram três destes guiões associados a menos património, rendimentos mais baixos e mais dívida em crédito rotativo (cartões e linhas de crédito): o de quem evita o dinheiro, o de quem acha que mais dinheiro resolve tudo, e o de quem mede o próprio valor pelo que tem. O quarto, o de quem é cuidadoso e vigilante com o dinheiro, aparecia associado a rendimentos e património mais altos.
Um estudo americano não diz quem tu és. Ajuda a perceber porque é que saber o que fazer nem sempre chega.
As frases que ouviste em casa sobre dinheiro
Os guiões vivem em frases. Daquelas que se ouvem tantas vezes que deixam de parecer opiniões:
- “Dinheiro não é tudo.”
- “Isso é para os ricos.”
- “Poupar é ser agarrado.”
- “Amanhã logo se vê.”
- “Com dinheiro não se brinca, guarda tudo.”
Nenhuma parece perigosa. Mas repara no que cada uma te diz para fazer. Se cresceste a ouvir que o dinheiro só traz problemas, é provável que o afastes: não abres os extratos e adias as decisões. Se em tua casa se gastava tudo o que entrava, é provável que faças o mesmo, ganhes o que ganhares.
Experimenta agora: qual foi a frase sobre dinheiro que mais ouviste em criança? Escreve-a. Depois pergunta-te se ela é verdade, ou se é só o que sempre se disse lá em casa.

Eu repeti o guião da minha família
Cresci numa família pobre. Houve alturas em que comíamos o que os vizinhos e os amigos nos davam. O meu pai tinha vícios que pioravam tudo, e a minha mãe acabou por vender a nossa casa por um valor baixo, para evitar o despejo e pagar as dívidas.
Em criança prometi a mim mesmo que nunca mais ia passar por aquilo. Ao mesmo tempo, fiquei com outra frase cá dentro: “nunca vou ser ninguém”. As duas andaram comigo durante anos, e contradiziam-se.
Quando recebi o primeiro salário, fiz exatamente o que tinha visto. Gastava tudo o que entrava, e levei os cartões de crédito ao limite sem precisar de nada daquilo. Queria parecer uma coisa que eu não era.
Durante muito tempo achei que estava a fazer as minhas escolhas. Estava a seguir um guião que me tinham entregado muito antes de eu ganhar dinheiro. Perceber isto tirou-me um peso de cima, porque deixei de me ver como um caso perdido e passei a ver um hábito que podia trocar.
Os 5 padrões mais comuns na relação com o dinheiro
No meu trabalho com o dinheiro uso 5 padrões, adaptados dos guiões de Klontz para uma linguagem do dia a dia. Ninguém é só um, mas quase toda a gente tem um que aparece mais.
| Padrão | Como aparece | A frase que se diz |
|---|---|---|
| Evitar | Não abres os extratos, não sabes ao certo quanto deves, adias | “Prefiro não saber” |
| Compensar | Gastas para aliviar o cansaço, a tristeza ou o stress | “Mereço, foi um dia horrível” |
| Parecer | Gastas para mostrar, comparas-te com os outros | “Não posso aparecer com isto” |
| Controlar | Poupas ao cêntimo, não gastas nem no que precisas, tens medo de investir | “E se precisar?” |
| Socorrer | Não consegues dizer não a pedidos de dinheiro da família, mesmo quando te fazem falta | “Não posso deixar a minha mãe sem ajuda” |
O meu era o Parecer. Os cartões ao limite tinham pouco a ver com o que eu precisava e muito a ver com o que eu queria mostrar.
Repara que Controlar também é um padrão, mesmo parecendo o comportamento certo. Quem guarda tudo e não consegue gastar nem no que é importante também vive com medo, só que de outra forma.
Se te reconheceste num deles, faz-te uma pergunta, sem pressa de responder: isto lembra-te alguém?
Porque é que saber o que fazer não muda a relação com o dinheiro
Porque o padrão não se sente como um padrão. Sente-se como quem tu és. “Eu sou assim com o dinheiro” é a frase que mais prende, porque trata como feitio aquilo que é hábito.
Há uma diferença grande entre as duas coisas. O feitio não se escolhe. Um hábito aprendeu-se, e pode ser aprendido de outra forma, com passos pequenos e repetidos.
Também não se trata de culpar os teus pais. Eles herdaram o guião deles e fizeram o que sabiam com o que tinham. O que interessa é perceber onde é que aquilo que aprendeste te está a custar dinheiro hoje, e decidir o que fazes a partir daqui.
Como mudar a tua relação com o dinheiro, passo a passo
Não precisas de mudar tudo de uma vez. Estes passos fazem-se em casa, com papel e caneta, e o que escreves fica contigo.
1. Escreve a tua história com o dinheiro. Como se falava de dinheiro em tua casa? O que fazia a tua família quando faltava, e quando sobrava? Em que é que te pareces com isso hoje?
2. Encontra o padrão nos teus números. Abre os extratos dos últimos 3 meses e olha para as compras de que te arrependeste. Para cada uma, pergunta: para quem era esta compra? Para mim, para aliviar alguma coisa, ou para mostrar a alguém? Se ainda não organizaste as contas, começa pelo plano de como organizar as finanças pessoais.
3. Faz uma regra para o teu momento fraco. Escreve-a na forma “quando… faço…”. Por exemplo: “quando chego a casa cansado e me apetece abrir a app de entregas, vejo primeiro o que há no frigorífico.” No ebook Orçamento Familiar Simplificado deixo outras regras deste tipo, como esperar 48 horas antes de qualquer compra acima de 100 €.
4. Faz uma coisa ao contrário do guião. Uma só. Se em tua casa nunca se olhava para as contas, marca 30 minutos por mês para olhares para as tuas. Se se gastava tudo assim que entrava, deixa uma parte de lado na conta da reserva, mesmo que seja pequena, e vê no artigo do fundo de emergência quanto deves ter.
5. Se o teu padrão é Socorrer, decide antes quanto podes ajudar. Um valor por mês, combinado contigo antes do pedido chegar. E uma frase na primeira pessoa: “Este mês posso ajudar com X, mais do que isso não consigo.”
Vais escorregar. O padrão volta nos dias maus. O que muda é que passas a dar por ele, e nesse momento já tens escolha.
E quando a relação com o dinheiro é partilhada?
Num casal, juntam-se dois guiões diferentes, e muitas das discussões sobre dinheiro são isso: a forma como cada um aprendeu em casa. Se é o teu caso, escrevi sobre como falar de dinheiro a dois sem discussões.
E se o dinheiro te anda a tirar o sono, escrevi sobre como o stress financeiro afeta a tua vida.
Resumo
A forma como lidas com o dinheiro começou muito antes do teu primeiro ordenado, a ver e a ouvir os adultos à tua volta. Não escolheste esse guião, mas podes decidir se ele continua a mandar. Começa pela frase que mais ouviste em casa: escreve-a hoje e lê-a de fora.
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Este conteúdo tem fins educativos e não substitui acompanhamento financeiro ou psicológico profissional. Se a relação com o dinheiro te está a causar sofrimento que vai além das contas, fala com um profissional de saúde.