Como organizar as finanças pessoais: o plano em 4 passos (com exemplo)

Como organizar as finanças pessoais em 4 passos, com caderno e café à mesa da cozinha

Para organizar as finanças pessoais, segues 4 passos por esta ordem: ver para onde vai o dinheiro, decidir o que fazer com o que sobra, pôr o sistema a funcionar sozinho e manter com uma revisão curta todos os meses. Com o dinheiro que sobra, a ordem também não muda: primeiro as dívidas caras, depois a reserva, e só a seguir investir.

Parece simples, e é. O difícil é manter. Segundo o 4.º Inquérito à Literacia Financeira do Banco de Portugal, 82,1% dos portugueses dizem ter alguma forma de controlar o orçamento. No mesmo inquérito, só 53,9% conseguiram poupar no último ano. A folha de cálculo quase toda a gente já tem. Falta o resto: a ordem, as regras e um sistema que não dependa da tua força de vontade.

Mais abaixo tens um exemplo completo de como organizar as finanças pessoais, com os números do mês de uma pessoa que ganha 1 400 €.

Por onde começar a organizar as finanças pessoais?

Começas por ver. Antes de cortar o que quer que seja, precisas de saber onde estás, e isso faz-se com os teus próprios extratos.

Abre o homebanking e passa os últimos 3 meses a pente fino. Cada movimento vai para uma de três categorias:

  • Fixas: pagas quase sempre o mesmo valor. Renda ou prestação da casa, luz, água, internet, telemóvel, passe, seguros.
  • Variáveis: mudam de mês para mês, mas não dá para viver sem elas. Supermercado, farmácia, combustível.
  • Supérfluas: dá para viver sem elas. Jantares fora, plataformas de streaming, roupa que não fazia falta, as entregas ao domingo à noite.

Se tens dúvidas sobre onde pôr cada despesa, explico a divisão com mais calma no artigo sobre como organizar as despesas sem complicar.

Ao mesmo tempo, faz a lista das dívidas. Para cada uma: quanto deves, quanto pagas por mês e a TAEG, que vem no contrato. É a TAEG que te diz quais são as dívidas caras.

Não deixes de fora as despesas que só aparecem uma vez por ano: o seguro do carro, o IUC, as prendas de Natal, o regresso às aulas. Não são imprevistos, porque acontecem todos os anos. Somas tudo e divides por 12, e esse valor entra nas fixas.

Há uma pergunta que ajuda nesta fase, e não tem resposta certa: como é que se falava de dinheiro em tua casa quando eras pequeno? A forma como lidamos com o dinheiro aprende-se, quase sempre em casa. Perceber de onde vem um hábito torna mais fácil mudá-lo.

Exemplo: o mês da Ana, com 1 400 € de ordenado

A Ana é um exemplo. Os valores são hipotéticos e servem só para mostrar as contas, porque os teus vão ser outros. A Ana recebe 1 400 € líquidos por mês, vive sozinha numa casa arrendada e não tem dívidas além do dia a dia.

Depois de passar 3 meses de extratos a limpo, o mês dela fica assim:

CategoriaO quêValor por mês
FixasRenda450 €
Luz, água e gás70 €
Internet e telemóvel40 €
Passe40 €
Despesas anuais a dividir por 1250 €
Total fixas650 €
VariáveisSupermercado260 €
Saúde e farmácia30 €
Total variáveis290 €
SupérfluasJantares e cafés fora110 €
Roupa e compras60 €
Ginásio35 €
Streaming20 €
Total supérfluas225 €
Sobra1 400 € − 650 € − 290 € − 225 €235 €
Exemplo de como organizar as finanças pessoais com 1 400 € por mês

A sobra é o número que interessa. É o dinheiro com que a Ana pode decidir alguma coisa: pagar dívidas, construir a reserva, investir. Se a sobra der negativa, já sabes onde está o problema antes de passares ao passo seguinte.

Quanto devo gastar em cada categoria?

Este é o segundo passo para organizar as finanças pessoais: decidir. Um bom ponto de partida é a regra 50/30/20, que divide o que recebes em três partes:

  • 50% para necessidades (fixas e variáveis)
  • 30% para despesas supérfluas
  • 20% para a sobra

Com 1 400 €, isto dava 700 € para necessidades, 420 € para supérfluas e 280 € de sobra. As contas da Ana são diferentes:

Regra 50/30/20A Ana
Necessidades700 € (50%)940 € (67%)
Supérfluas420 € (30%)225 € (16%)
Sobra280 € (20%)235 € (17%)

As necessidades da Ana passam dos 50%, e só a renda leva quase um terço do ordenado. Mesmo assim, ela gasta menos de metade do que a regra permite em supérfluas e chega perto dos 20% de sobra. A regra serve para te comparares, e as percentagens ajustam-se à tua vida.

Como explico no ebook Orçamento Familiar Simplificado, a 50/30/20 é um ponto de partida e não uma lei. Lá mostro outras divisões pensadas para quem vive em Portugal, como a 70/20/10 para quem tem pouca margem ou a 80/10/10 para quem paga uma renda muito alta. O que conta é o hábito de guardar alguma coisa todos os meses, mesmo que seja pouco.

Repara numa coisa: planeias primeiro as despesas e só depois repartes o que sobra. Não precisas de tirar a poupança antes de saberes se as contas fecham.

Quando quiseres aumentar a sobra, começa por mudar a forma de pagar o que gostas, antes de o cortar. Eu faço isto com o streaming: pago só uma plataforma de cada vez, a que tem o que quero ver nesse mês, e troco no mês seguinte. Continuo a ver o que quero e pago menos. O que é importante para ti fica protegido, e corta-se noutro lado.

Para fechar este passo, escreve um objetivo com data: o quê, quanto e até quando. “Ter 940 € de lado até fevereiro” funciona. “Poupar mais” não diz nada.

Se quiseres montar o orçamento com mais detalhe, tens tudo no guia do orçamento familiar.

Para onde vai o dinheiro que sobra?

Quando vais organizar as finanças pessoais, a ordem das prioridades não muda, seja qual for o teu ordenado.

1. Uma almofada pequena e as dívidas caras. Se tens créditos pessoais ou cartões, guardas primeiro uma almofada de 1 mês de despesas essenciais, até ao máximo de 1 000 €. Serve para que um imprevisto não te obrigue a usar o cartão outra vez. Depois disso, a sobra vai para pagar as dívidas mais depressa, sem nunca falhar as prestações mínimas. Explico o plano todo em como sair das dívidas.

Se já tens prestações em atraso, este plano fica para depois. O primeiro passo é falar com o banco, e no mesmo artigo explico os direitos que tens nessa situação.

2. A reserva de emergência. Sem dívidas caras, a sobra vai para a reserva. Para quem tem contrato estável, a meta são 3 meses de despesas essenciais (casa, contas, alimentação, saúde, transportes e prestações). As supérfluas ficam de fora, porque numa emergência cortam-se. Se trabalhas a recibos verdes ou o teu rendimento varia, precisas de mais, e explico porquê no artigo sobre finanças para freelancers e recibos verdes.

3. Investir. Só com a reserva feita é que faz sentido pensar em investir, porque é ela que te deixa aguentar uma queda sem vender à pressa. O caminho está no roadmap do investidor iniciante.

Voltemos à Ana. Ela não tem dívidas, por isso começa pela reserva, e constrói-a por patamares:

PatamarValorComo se chega lá
1 mês de essenciais940 €940 € ÷ 235 € = 4 meses
3 meses de essenciais2 820 €2 820 € ÷ 235 € = 12 meses, a contar do zero

Com 235 € por mês, a Ana tem o primeiro patamar em 4 meses e a reserva completa ao fim de um ano. Cada patamar é uma meta com data, e isso ajuda a não desistir a meio. Sobre quanto guardar e onde pôr este dinheiro, tens o artigo do fundo de emergência.

Queres montar o teu orçamento com as divisões adaptadas a Portugal? No ebook Orçamento Familiar Simplificado explico a regra 50/30/20 e as alternativas para quem tem pouca margem, como cortar custos sem perder o que gostas, o fundo de emergência e como automatizar a poupança. Custa 7 €. 👉 Vê aqui o ebook Orçamento Familiar Simplificado

Como pôr as finanças pessoais a funcionar sozinhas?

O terceiro passo para organizar as finanças pessoais é agir, e a regra é simples: o que pode ser automático, é automático. Uma transferência agendada sai no dia certo, estejas com vontade ou não.

Na prática, isto passa por separar o dinheiro em contas diferentes:

ContaPara quê
Dia a diaSupermercado, cafés, tudo o que é variável e supérfluo
FixasRenda, contas, prestações, débitos diretos
ReservaSó para emergências. Não se lhe mexe para férias
Despesas anuaisO valor mensal guardado para o seguro, o IUC e as prendas

As duas últimas podem ser subcontas ou “mealheiros” dentro do teu banco, não precisas de abrir contas noutro lado.

No dia em que o ordenado cai, as transferências saem sozinhas: o valor das fixas, o duodécimo das despesas anuais e a parte da sobra que decidiste para a reserva. O que fica na conta do dia a dia é o que podes gastar até ao fim do mês, sem contas de cabeça.

Para a Ana, isto quer dizer 650 € para a conta das fixas, 235 € para a reserva, e 515 € para o dia a dia (as variáveis e as supérfluas).

Como manter as finanças pessoais organizadas todos os meses?

O último passo é manter, e é ele que decide se organizar as finanças pessoais fica para a vida ou dura um mês. Duas rotinas chegam.

Uma vez por semana, 10 minutos. Vês o saldo da conta do dia a dia e confirmas se o que falta do mês chega para o que falta gastar. Nos primeiros meses é o que te mantém no caminho.

Uma vez por mês, 30 minutos, sempre no mesmo dia. Comparas o que planeaste com o que aconteceu, ajustas o orçamento do mês seguinte e confirmas que as transferências saíram. Uma vez por ano, revês os contratos e os seguros e vês se a reserva ainda tem o tamanho certo para a tua vida.

Vai haver meses maus, com um jantar de aniversário a mais ou uma avaria no carro. Quando acontecer, voltas à rotina no mês seguinte, sem culpa e sem começar do zero.

Ajuda ter uma regra para o momento em que costumas gastar sem pensar. Por exemplo: “quando chego a casa cansado e me apetece abrir a app de entregas, vejo primeiro o que há no frigorífico”.

Os erros que fazem desistir de organizar as finanças pessoais

Os dois erros que o plano tenta evitar desde o início:

  1. Cortar tudo de uma vez. O orçamento passa a ser um castigo, e um castigo não se aguenta muito tempo. Por isso o que gostas fica, e muda-se primeiro a forma de pagar.
  2. Investir antes de ter reserva. Se aparecer um imprevisto, podes ter de vender no pior momento ou voltar ao cartão de crédito.

Resumo do plano

Organizar as finanças pessoais resume-se a um ciclo que repetes a vida inteira. Vês para onde vai o dinheiro, decides o que fazer com a sobra, pões o sistema a trabalhar sozinho e manténs com 30 minutos por mês. A ordem das prioridades fica sempre igual: dívidas caras, reserva, investir.

Começa pelo primeiro passo esta semana. Abre os extratos dos últimos 3 meses e separa as despesas em fixas, variáveis e supérfluas. Só com isso já vais saber mais sobre o teu dinheiro do que sabias no mês passado.

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Este conteúdo tem fins educativos e não substitui aconselhamento financeiro profissional. Cada situação é única. Antes de tomares decisões sobre crédito ou investimento, avalia a tua situação ou procura um profissional certificado.

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