Para fazer um orçamento familiar, somas o que entra em casa por mês, separas o que sai em despesas fixas, variáveis e supérfluas, e ficas a saber quanto sobra. A partir desse número decides o que fazer com o dinheiro, e revês tudo uma vez por mês. Não precisas de uma folha de cálculo com 30 categorias nem de cortar tudo o que gostas.
Há uma pergunta que mostra se precisas disto: quanto gastaste no mês passado? Quanto ganhas, toda a gente sabe. Quanto saiu, quase ninguém sabe ao certo, porque hoje o dinheiro sai por tantos lados que é fácil perder o rasto.
Mais abaixo tens o orçamento completo de uma família com um filho, com as contas feitas.
Índice
Porque é que o orçamento familiar vem antes de tudo?
Antes de poupar, investir, comprar casa ou pagar dívidas, precisas de um número: quanto sobra por mês. Sem ele, todas as outras decisões são palpites.
Por isso o orçamento aparece sempre primeiro. É o passo menos entusiasmante, e é o que torna os outros possíveis. Se queres ver como se encaixa no resto, explico a ordem completa no plano de como organizar as finanças pessoais.
Passo 1: quanto entra em casa por mês?
Soma o rendimento líquido de toda a gente do agregado. O líquido é o que cai na conta, depois dos descontos.
Entra tudo o que é regular:
- Ordenados líquidos de quem trabalha
- Pensões e rendimentos de trabalho independente
- Rendas que recebas, já sem impostos
- Abono de família e outros apoios mensais
Se o teu rendimento varia de mês para mês, usa a média dos últimos 6 meses. Não uses o melhor mês, porque é com esse que as contas falham.
Os subsídios de férias e de Natal ficam de fora desta soma. Tratamos deles mais à frente.
Passo 2: para onde vai o dinheiro?
Abre o homebanking e passa a pente fino os extratos dos últimos 3 meses. As despesas que achas que tens raramente são as que tens, e 3 meses chegam para apanhar o que não acontece todos os meses.
Cada saída vai para uma de três categorias:
- Fixas: pagas quase sempre o mesmo valor. Renda ou prestação da casa, luz, água, gás, internet, telemóveis, seguros, creche.
- Variáveis: mudam de mês para mês, mas não dá para viver sem elas. Supermercado, combustível, farmácia.
- Supérfluas: dá para viver sem elas. Restaurantes, passeios, compras que não faziam falta, plataformas de streaming.
O que entra menos o que sai é a sobra. É o número mais importante do orçamento familiar.
As despesas que ninguém põe no orçamento
Há três tipos de despesa que estragam orçamentos bem feitos, porque não aparecem todos os meses.
As anuais: seguro do carro, IUC, IMI, revisão do carro, dentista. Chegam de repente e obrigam a ir à poupança ou ao cartão. Soma o que pagas num ano, divide por 12 e põe esse valor nas fixas.
As sazonais: Natal, férias, regresso às aulas. Toda a gente sabe que vêm aí, e quase ninguém as prepara. Entram na mesma conta das anuais.
As invisíveis: subscrições esquecidas, comissões bancárias, pequenas compras online. Sozinhas parecem nada. Somadas num ano, pesam. Mostro como as caço neste vídeo:

Exemplo: o orçamento familiar da Marta e do João
A Marta e o João são um exemplo. Os valores são hipotéticos e servem para mostrar as contas, porque os da tua casa vão ser outros. Têm um filho na creche e recebem 2 500 € líquidos por mês, somando os dois ordenados.
| Categoria | O quê | Valor por mês |
|---|---|---|
| Fixas | Prestação da casa | 800 € |
| Creche | 150 € | |
| Luz, água e gás | 110 € | |
| Despesas anuais a dividir por 12 | 80 € | |
| Internet e telemóveis | 50 € | |
| Seguros | 40 € | |
| Total fixas | 1 230 € | |
| Variáveis | Supermercado | 450 € |
| Combustível | 120 € | |
| Roupa e coisas do filho | 60 € | |
| Saúde e farmácia | 40 € | |
| Total variáveis | 670 € | |
| Supérfluas | Restaurantes e cafés | 150 € |
| Compras | 80 € | |
| Lazer e passeios | 60 € | |
| Streaming | 15 € | |
| Total supérfluas | 305 € | |
| Sobra | 2 500 € − 1 230 € − 670 € − 305 € | 295 € |
As despesas anuais deles (seguro do carro, IUC, IMI, prendas e material escolar) somam 960 € por ano. A dividir por 12, dá os 80 € por mês que estão nas fixas.

Passo 3: como dividir o orçamento familiar?
Com os números na mão, precisas de uma referência para saber se estão equilibrados. A mais conhecida é a regra 50/30/20: 50% para necessidades (fixas e variáveis), 30% para supérfluas e 20% de sobra.
É um ponto de partida, e a casa muda tudo. Quanto mais pesa a renda ou a prestação, mais difícil é chegar aos 50% de necessidades. Por isso, a meta ajusta-se ao peso da casa no que entra:
| Peso da casa no rendimento | Meta de partida (necessidades / supérfluas / sobra) |
|---|---|
| Até 35% | 50 / 30 / 20 |
| De 35% a 45% | 60 / 20 / 20 |
| Acima de 45% | 70 / 15 / 15 |
Na Marta e no João, a prestação leva 32% do rendimento (800 € de 2 500 €), por isso a meta de partida é 50/30/20. As contas deles:
| Meta | A Marta e o João | |
|---|---|---|
| Necessidades | 1 250 € (50%) | 1 900 € (76%) |
| Supérfluas | 750 € (30%) | 305 € (12%) |
| Sobra | 500 € (20%) | 295 € (12%) |
As necessidades passam muito dos 50%, sobretudo por causa da creche e do supermercado de uma família de três. Mesmo assim, gastam menos de metade do que a regra permite em supérfluas, e a sobra fica acima dos 10% do rendimento. É esse o mínimo a proteger: quando o mês aperta, encolhem primeiro as supérfluas, depois as variáveis, e a sobra não desce dos 10%.
Se precisares de ideias para baixar despesas sem cortar o que gostas, juntei várias em como poupar dinheiro em Portugal.
A ordem também conta: planeias primeiro as despesas e só depois repartes o que sobra. Não tens de tirar a poupança antes de saber se as contas fecham.
Queres montar o orçamento da tua casa sem começar do zero? No ebook Orçamento Familiar Simplificado explico a regra 50/30/20 adaptada a Portugal, como cortar custos sem perder o que gostas, o fundo de emergência e como automatizar a poupança. Custa 7 €. 👉 Vê aqui o ebook Orçamento Familiar Simplificado
Outros métodos para gerir o orçamento familiar
A divisão em percentagens não é a única forma. Há dois métodos clássicos que funcionam bem para alguns perfis.
O método dos envelopes. Divides o dinheiro do mês por categorias (supermercado, combustível, lazer) e pões cada valor num envelope, físico ou digital. Quando um envelope acaba, acabam os gastos nessa categoria até ao mês seguinte. Os limites ficam à vista, e isso ajuda quem gasta por impulso.
O orçamento base zero. Todos os meses começas do zero e dás uma função a cada euro que entra: contas, supermercado, reserva, lazer. No fim, a diferença entre o que entra e o que tem destino é zero. Obriga a pensar em cada despesa antes de ela acontecer.
Qualquer um dos dois funciona com as mesmas categorias: fixas, variáveis e supérfluas.
Passo 4: o que fazer com a sobra e com os subsídios?
A sobra segue uma ordem que não muda: primeiro as dívidas caras, depois a reserva de emergência, e só a seguir investir. A Marta e o João não têm dívidas além da casa, por isso começam pela reserva. Com 3 meses de despesas essenciais como meta, precisam de 5 700 € (1 900 € × 3). Explico quanto guardar e onde no artigo do fundo de emergência.
Para isto funcionar sem depender da memória, automatiza no dia em que o ordenado cai: o valor das fixas para uma conta, a fatia das despesas anuais para outra, e a parte da sobra para a reserva. O que fica na conta do dia a dia é o que podes gastar até ao fim do mês.
Os subsídios de férias e de Natal não entram na conta do mês. Decide para onde vão antes de chegarem: as despesas sazonais que lhes correspondem (as férias, o Natal), a reserva, ou uma dívida cara. Se esperares pelo dia em que caem na conta, o mais provável é desaparecerem. Tenho um artigo sobre o que fazer com o subsídio de férias.
Passo 5: como manter o orçamento familiar todos os meses?
Um orçamento familiar não se faz uma vez. Revê-se.
Marca 30 minutos por mês, sempre no mesmo dia. Comparas o que planeaste com o que aconteceu, percebes onde derrapou e ajustas o mês seguinte. Nos primeiros meses, uma espreitadela de 10 minutos por semana à conta do dia a dia ajuda a criar o hábito.
Uma vez por ano, faz uma revisão maior: contratos de luz, telecomunicações e seguros, as despesas anuais do ano seguinte e os objetivos da família.
Vai haver meses em que uma categoria derrapa. Um orçamento que derrapa e se ajusta continua a funcionar. O que não funciona é desistir ao segundo mês.
Envolve a família
O orçamento familiar é da casa, não de uma pessoa. Se vives com alguém, façam-no os dois, e combinem como dividem as despesas. Explico os modelos de conta e as contas da divisão no artigo de finanças para casais.
Com filhos mais crescidos, mostrar-lhes parte do orçamento (quanto custa o supermercado do mês, quanto se guarda para as férias) ajuda-os a perceber o valor do dinheiro desde cedo.
E quando as contas não fecham?
Às vezes o problema não é a organização. O dinheiro não chega, e conselhos sobre cortar no café não servem de nada. Nesses casos, há três frentes com impacto.
Baixar as despesas fixas grandes. Telecomunicações, seguros e, sobretudo, o crédito habitação, que costuma ser a maior despesa da casa. Se tens crédito há vários anos, renegociar com o banco pode baixar a prestação.
Confirmar os apoios a que tens direito. Há famílias que não recebem apoios por não saberem que se aplicam ao seu caso.
Aumentar o rendimento. É o caminho mais difícil e o que tem mais impacto: negociar o ordenado, mudar de função, ou um rendimento extra.
Este vídeo junta as despesas que mais pesam e que dá para evitar:

Resumo
Fazer um orçamento familiar resume-se a cinco passos: somar o que entra, separar o que sai em fixas, variáveis e supérfluas, comparar com uma meta ajustada ao peso da casa, decidir para onde vai a sobra e rever 30 minutos por mês. Começa hoje pelo passo mais simples: abre os extratos dos últimos 3 meses.
Queres continuar a aprender, um passo de cada vez? A newsletter do Coach das Finanças é semanal e gratuita: finanças pessoais e casa, explicadas para quem vive em Portugal. 👉 Subscreve aqui a newsletter
Este conteúdo tem fins educativos e não substitui aconselhamento financeiro profissional. Cada situação familiar é única.
