O aumento do salário mínimo previsto para 2027 é de 50 €: dos 920 € de hoje para 970 € brutos por mês. Depois dos 11 % para a Segurança Social, sobram 44,50 €. Parece uma boa notícia, e para muita gente é. Mas quando olho para o que subiu nos últimos meses, a renda, o supermercado, o café, fico com a sensação de que esses 44,50 € desaparecem antes de chegarem a fazer diferença.
Fui ver o que dizem os números do INE e do Banco de Portugal sobre o salário mínimo. Há coisas que confirmam essa sensação e uma que a contraria, e vou mostrar-te as duas.

Índice
Quanto vai ser o salário mínimo em 2027?
Em 2026, o salário mínimo no continente é de 920 € brutos, pagos 14 vezes por ano. Está fixado no Decreto-Lei n.º 139/2025.
Os 970 € de 2027 vêm do acordo de concertação social assinado em outubro de 2024 entre o Governo e os parceiros sociais, que prevê subidas de 50 € por ano até aos 1 020 € em 2028. Ainda não é lei. O valor de cada ano é fixado por decreto, depois de ouvida a Concertação Social, e os sindicatos estão a pedir mais. Quando o decreto sair, este artigo é atualizado.
Em percentagem, passar de 920 € para 970 € é um aumento de 5,43 % (970 ÷ 920 = 1,0543).
Como se decide o salário mínimo de cada ano
O acordo de 2024 dá a trajetória, mas não fixa o valor sozinho. Todos os anos o Governo leva o tema à Concertação Social, onde estão os sindicatos e as confederações patronais, e depois aprova o valor por decreto-lei. Por isso, até o decreto sair em Diário da República, os 970 € são uma previsão. O valor pode ficar nos 970 € ou subir mais, se houver um novo acordo.
Quem ganha o salário mínimo em Portugal
Antes de olhar para o aumento, vale a pena perceber de quem estamos a falar. Em 2022, 22,8 % dos trabalhadores tinham um salário base igual ao salário mínimo, segundo o Banco de Portugal. Em alguns grupos, a percentagem é muito maior:
| Grupo (2022) | Ganham o salário mínimo |
|---|---|
| Todos os trabalhadores | 22,8 % |
| Mulheres | 27,1 % |
| Jovens | 36,1 % |
| Trabalhadores com ensino básico ou inferior | 32,9 % |
| Trabalhadores estrangeiros | 38,0 % |
| Contratos a termo certo | 33,3 % |
| Contratos sem termo certo | 18,7 % |
São quase um em cada quatro trabalhadores. Quando o salário mínimo sobe, mexe com o ordenado de muita gente, e com as contas de muitas empresas.
Do bruto ao líquido: quanto fica mesmo no bolso
Por lei, todos descontamos 11 % do ordenado bruto para a Segurança Social. É por aqui que o aumento começa a encolher.
| 2026 | 2027 (previsto) | Diferença | |
|---|---|---|---|
| Salário bruto | 920,00 € | 970,00 € | +50,00 € |
| Segurança Social (11 %) | 101,20 € | 106,70 € | +5,50 € |
| Depois da Segurança Social | 818,80 € | 863,30 € | +44,50 € |
Os valores são para um trabalhador solteiro, sem dependentes, no continente. Não incluem o subsídio de refeição.
E o IRS? Quem ganha o salário mínimo está protegido pelo chamado mínimo de existência (artigo 70.º do Código do IRS). Em 2026, o valor de referência é de 12 880 €, que é exatamente 920 € × 14. A proposta de Orçamento do Estado para 2027 sobe esse valor para 13 580 €, que é exatamente 970 € × 14. Ou seja, o limite acompanha o salário mínimo. Enquanto o Orçamento não for aprovado, isto continua a ser proposta.
Quanto dá o aumento ao fim do ano
Como o salário é pago 14 vezes (12 meses mais os subsídios de férias e de Natal), vale a pena ver as contas no ano inteiro:
| Por ano | 2026 | 2027 (previsto) | Diferença |
|---|---|---|---|
| Salário bruto (× 14) | 12 880,00 € | 13 580,00 € | +700,00 € |
| Segurança Social (11 %) | 1 416,80 € | 1 493,80 € | +77,00 € |
| Depois da Segurança Social | 11 463,20 € | 12 086,20 € | +623,00 € |
São 623 € a mais no ano inteiro. É com este número que tens de comparar o que vai subir nas tuas despesas.
O aumento do salário mínimo chega para o custo de vida?
Esta é a parte que mais me incomoda. Um aumento de 5,43 % parece bom ao lado da inflação média, que em 2025 foi de 2,3 %, segundo o INE. Só que ninguém vive da inflação média. Vives da tua renda, das tuas compras e das tuas contas. Juntei os aumentos que mais pesaram no artigo sobre o que subiu de preço em 2025.
A inflação média junta tudo o que se compra em Portugal, incluindo o que ficou mais barato. Em 2025, por exemplo, os produtos energéticos desceram 0,2 % em média, segundo o INE. Isso puxa a média para baixo, mesmo que a tua renda e o teu cabaz tenham subido bem mais.
E aí os números de 2025 contam outra história:
| O que subiu em 2025 | Variação média anual (INE) |
|---|---|
| Inflação total (IPC) | 2,3 % |
| Produtos alimentares não transformados | 4,8 % |
| Rendas de habitação | 5,3 % |
| Restaurantes e hotéis | 6,4 % |
E nos contratos de arrendamento novos a subida é maior: no 1.º trimestre de 2026, a renda mediana dos novos contratos subiu 9,1 % face ao ano anterior, segundo o INE.
Faz a conta com um exemplo. Imagina que pagas 500 € de renda (é um valor hipotético, só para a conta). Se subir 5,3 %, como a média das rendas em 2025, passas a pagar mais 26,50 € por mês. Isso são 60 % dos 44,50 € que o aumento te deixa por mês (26,50 ÷ 44,50 = 0,60). No ano, a renda paga-se 12 vezes: são 318 € a mais (26,50 × 12), mais de metade dos 623 € que ganhas com o aumento.
Se mudares de casa e a nova renda subir ao ritmo dos contratos novos, 9,1 %, são mais 45,50 €: o aumento inteiro, e ainda falta 1 €.
É isto a que eu chamo ilusão. O número no recibo sobe. O que consegues fazer com ele, depois de pagares a casa e as compras, sobe muito menos, e nalguns casos nem sobe.
O argumento contrário, que tenho de reconhecer
Seria desonesto ficar por aqui. Se olharmos para a última década, o salário mínimo ganhou poder de compra.
Em 2015 era de 505 €. Em 2025 era de 870 €. Isso é uma subida de 72 %. No mesmo período, os preços (IPC) subiram cerca de 23 %. Descontada a inflação, o salário mínimo valia em 2025 cerca de 40 % mais do que em 2015 (1,72 ÷ 1,23 = 1,40).
Houve um ano em que perdeu: 2022, o ano em que a inflação disparou (expliquei como te defender dela em como proteger o poder de compra da inflação). O salário mínimo subiu 6 % e a inflação foi de 7,8 %.
Ano a ano, fica assim:
| Ano | Salário mínimo | Aumento | Inflação (IPC, INE) | Aumento descontada a inflação |
|---|---|---|---|---|
| 2016 | 530 € | 5,0 % | 0,6 % | +4,3 % |
| 2017 | 557 € | 5,1 % | 1,4 % | +3,6 % |
| 2018 | 580 € | 4,1 % | 1,0 % | +3,1 % |
| 2019 | 600 € | 3,4 % | 0,3 % | +3,1 % |
| 2020 | 635 € | 5,8 % | 0,0 % | +5,8 % |
| 2021 | 665 € | 4,7 % | 1,3 % | +3,4 % |
| 2022 | 705 € | 6,0 % | 7,8 % | −1,7 % |
| 2023 | 760 € | 7,8 % | 4,3 % | +3,4 % |
| 2024 | 820 € | 7,9 % | 2,4 % | +5,4 % |
| 2025 | 870 € | 6,1 % | 2,3 % | +3,7 % |
A última coluna é a conta (1 + aumento) ÷ (1 + inflação), feita com as taxas arredondadas a uma casa decimal.
Repara no que aconteceu depois de 2022. Em 2023 e 2024, o salário mínimo subiu 7,8 % e 7,9 %, bem acima da inflação desses anos. Só em 2023, o ganho descontada a inflação (3,4 %) já foi maior do que a perda de 2022 (1,7 %).
Ou seja, a tese da ilusão não se aplica à década inteira. Aplica-se ao momento em que estamos, em que as despesas que mais pesam a quem ganha pouco (casa e comida) sobem bem acima da média. E aplica-se a quem anda à procura de casa agora, que apanha os preços dos contratos novos.
O que acontece a quem ganha um pouco mais do que o mínimo
Esta é a outra parte que me preocupa. Quando o salário mínimo sobe e os ordenados logo acima não acompanham, a distância entre os dois encolhe. Quem tem mais experiência ou mais responsabilidade acaba a ganhar quase o mesmo que quem acabou de entrar.
Os dados do Banco de Portugal mostram isto de forma clara:
- Em 2025, o salário mínimo já valia 91 % do salário mediano (o do meio da tabela), contra 87 % em 2019. Na medida do Eurostat, que só conta empresas com 10 ou mais trabalhadores, Portugal tinha em 2024 o valor mais alto da zona euro.
- Entre 2015 e 2022, cerca de 4 % dos trabalhadores que ficaram na mesma empresa passaram a ganhar o salário mínimo sem terem descido de ordenado: o mínimo subiu e apanhou-os.
- Em 2022, 67 % dos trabalhadores que ganhavam acima do mínimo, mas no quarto mais baixo da empresa, tiveram aumentos inferiores ao do salário mínimo.
O próprio Banco de Portugal diz que esta compressão em torno do salário mínimo “levanta questões importantes relativamente aos incentivos dos trabalhadores e à dinâmica da produtividade”.
Para mim, o problema está nos dois lados. A compressão em si, e a lentidão com que os salários acima do mínimo progridem. Se ganhas 1 000 € e o mínimo chega aos 970 €, a pergunta que fica é para que servem os anos de casa e o que aprendeste pelo caminho.
Há uma nuance justa: o mesmo Boletim mostra que a desigualdade salarial em Portugal desceu muito nos últimos 15 anos e é das mais baixas da zona euro.
Entre 2010 e 2025, a distância entre quem ganha mais (os 10 % do topo) e quem ganha menos (os 10 % de baixo) passou de 3,4 vezes para 2,4 vezes. E a distância entre o ordenado do meio da tabela e o dos 10 % que ganham menos passou de 1,4 para 1,1 vezes. Dito de outra forma, em 2025 quem estava a meio da tabela ganhava só cerca de 10 % mais do que quem estava quase no fundo. Comprimir a tabela por baixo tem esse lado bom. O que falta é a parte de cima da tabela também crescer.
Se estás nessa zona, logo acima do mínimo, vale a pena preparares a conversa com a tua chefia antes do aumento de janeiro. Escrevi sobre isso em como negociar salário em Portugal.
O aumento do salário mínimo e as empresas: é um, ou são vários?
Para quem recebe, o aumento são 50 €. Para a empresa, o custo é maior, e multiplica-se por cada pessoa que ganha o mínimo.
A empresa paga, além do salário, 23,75 % para a Segurança Social. Por cada trabalhador no mínimo, o aumento de 50 € custa 61,88 € por mês (50 × 1,2375). Como são 14 pagamentos, dá 866,25 € por ano, por trabalhador.
Agora imagina uma empresa com várias pessoas no salário mínimo (os números de trabalhadores são hipotéticos, só para a conta):
| Trabalhadores no salário mínimo | Custo a mais por mês | Custo a mais por ano (14 pagamentos) |
|---|---|---|
| 1 | 61,88 € | 866,25 € |
| 5 | 309,38 € | 4 331,25 € |
| 10 | 618,75 € | 8 662,50 € |
Um restaurante com 10 pessoas no mínimo paga mais 8 662,50 € por ano, só neste aumento, antes de qualquer outro custo.
O restaurante do exemplo está longe de ser um caso raro. Segundo o Banco de Portugal, em 2022, 44 % dos trabalhadores das empresas mais pequenas ganhavam o salário mínimo, e no alojamento e restauração eram 41,5 %. Na média de todos os trabalhadores, eram 22,8 %.
É aqui que vejo o maior risco. Uma empresa pequena com vários trabalhadores no mínimo tem de ir buscar esse dinheiro a algum lado. Pode ser ao investimento que ia fazer na própria empresa, aos aumentos dos outros trabalhadores (e voltamos à compressão), ou, nos casos em que a margem já é curta, pode levar a despedimentos para se manter a funcionar.
Também aqui tenho de ser justo com os dados. Nenhum estudo português que encontrei mede quanto o aumento do salário mínimo faz subir os preços em Portugal. Lá fora, os estudos encontram subidas em setores como a restauração. Mas no Reino Unido, a comissão que acompanha o salário mínimo conclui que, no total, ele tem uma contribuição pequena para a inflação. Em Portugal, os restaurantes e hotéis subiram 6,4 % em 2025, bem acima da média. Mas os números do INE não dizem porquê, e sem um estudo português não dá para pôr essa subida na conta do salário mínimo.
O que isto muda para ti
Se ganhas o salário mínimo: em 2027 deves ter cerca de 44,50 € a mais por mês, se os 970 € se confirmarem. Antes de contares com esse dinheiro, olha para a tua renda e para o teu supermercado. Se a renda vai ser atualizada, faz a conta do quanto sobra.
Pega nos 44,50 € e tira o que vai subir na renda, nas compras do mês e no passe ou no combustível. O que ficar é o teu aumento de verdade. Se der perto de zero, já sabes que 2027 não traz folga e que o orçamento tem de ser feito com os valores novos das despesas, e não com os de 2026.
Organizar as contas do mês ajuda a ver para onde vai cada euro, e o guia do orçamento familiar explica como começar. Se queres ideias para poupar com este salário, tens o plano para poupar com o salário mínimo.
Se ganhas um pouco acima: confirma se o teu aumento de janeiro acompanha o do salário mínimo. Compara em percentagem, e não em euros. Um exemplo com valores hipotéticos: se ganhas 1 100 € e o teu aumento for de 3 %, recebes mais 33 € brutos (1 100 × 0,03), menos do que os 50 € de quem está no mínimo. A distância entre os dois passa de 180 € para 163 €. Se isto te acontecer, estás a ficar mais perto do mínimo, e esse é o momento para negociar, com o que fazes a mais em cima da mesa.
Se tens uma pequena empresa: faz a conta do custo total por trabalhador com a Segurança Social incluída, e multiplica pelos 14 pagamentos. É esse o número que tens de pôr no orçamento de 2027, e não os 50 €. A tabela acima dá-te a ordem de grandeza: por cada pessoa no mínimo, são 866,25 € por ano. Se tens trabalhadores logo acima do mínimo, conta também com o que vais precisar para manter alguma distância, senão é a tua equipa mais experiente que fica a ganhar quase o mesmo que quem acabou de entrar.
O aumento do salário mínimo ajuda quem ganha menos, e os números da última década mostram isso. Mas enquanto a casa e a comida subirem mais depressa do que a média, e os ordenados logo acima ficarem parados, os 50 € de 2027 vão parecer muito menos do que são no papel.
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