Se andas a acompanhar as notícias sobre a tua prestação da casa, aqui vai o resumo: na quinta-feira passada, 23 de julho, o Banco Central Europeu decidiu não mexer nas taxas de juro. Não subiu, não desceu. Ficou tudo como estava.
Mas antes de respirares de alívio, há uma parte da história que interessa mais: a maioria dos economistas acredita que a próxima subida vem em setembro.
Em junho, o BCE tinha subido as taxas diretoras pela primeira vez em quase três anos. Não foi um exagero, foram só 0,25 pontos percentuais, mas foi o suficiente para travar a folga que milhares de famílias sentiam desde 2024. A decisão de julho foi uma pausa, não uma inversão. Já falei antes sobre como renegociar o crédito habitação com o banco, e esta pausa é precisamente a janela certa para teres essa conversa.
Vamos por partes: o que o BCE decidiu, o que se espera para setembro, e o que fazer com a tua prestação nesta pausa.
O que é a Euribor (resumo rápido para quem já esqueceu)
A Euribor é a taxa a que os bancos da zona euro emprestam dinheiro entre si. Não é fixada por nenhum governo, resulta da média das taxas praticadas nesse mercado. Em Portugal, a maioria dos créditos habitação com taxa variável ou mista está indexada a ela, sobretudo à Euribor a 6 meses, que é a mais usada nos contratos.
Quando a Euribor sobe, a tua prestação sobe. Quando desce, alivia. É basicamente isto.
O que o BCE decidiu a 23 de julho
O Conselho do BCE manteve as três taxas diretoras inalteradas. A taxa de depósitos fica nos 2,25%, a das operações principais de refinanciamento nos 2,40%, e a de cedência de liquidez nos 2,65%.
A justificação foi o choque energético: os preços da energia continuam bem acima dos níveis anteriores ao conflito no Médio Oriente, e o BCE admite que o impacto inflacionista total ainda não se fez sentir todo. Christine Lagarde deixou claro que a instituição prefere esperar por mais dados antes de mexer outra vez.
Em junho, o BCE tinha subido as taxas 0,25 pontos percentuais, a primeira subida desde setembro de 2023. Julho foi uma pausa nesse movimento, não um regresso ao ciclo de descidas.
Julho trouxe uma coisa invulgar nas Euribor: em vez de todas as maturidades se moverem juntas, dividiram-se. A Euribor a 3 meses subiu para o valor mais alto desde março de 2025, enquanto a 6 e a 12 meses recuaram ligeiramente. O prazo mais curto reage de forma mais imediata às expectativas sobre as reuniões próximas; os prazos mais longos já incorporam a ideia de que as taxas podem estabilizar mais para a frente.
Para quem tem crédito habitação, o que importa é saber a que prazo o teu contrato está indexado, porque é esse valor que decide a tua próxima revisão de prestação.
Os valores mais recentes da Euribor:
– Euribor a 3 meses: 2,483%
– Euribor a 6 meses: 2,688%
– Euribor a 12 meses: 2,873%
Um exemplo com números reais
Imagina um crédito habitação de 150 mil euros, a 30 anos, spread de 1%, indexado à Euribor a 6 meses.
Com a Euribor a 6 meses perto de 2,6%, a taxa de juro fica nos 3,6%, e a prestação mensal ronda os 681 euros.
Compara com o pico de 2023, quando a Euribor a 6 meses chegou perto dos 4,1%. Nessa altura, a mesma prestação estava nos 808 euros. A descida das taxas nos anos seguintes representou uma poupança de mais de 100 euros por mês. E foi precisamente esse alívio que a subida de junho começou a inverter, ainda que de forma ligeira.
Porque é que setembro é a data que interessa
A próxima reunião de política monetária do BCE é a 9 e 10 de setembro, e é aí que a maioria dos analistas espera ver movimento. Num painel de economistas consultados pela Reuters em meados de julho, cerca de 70% acredita que o BCE volta a subir as taxas ainda este ano, precisamente nessa reunião de setembro.
Não é consenso, no entanto. Há economistas que defendem que o banco central não mexe mais em 2026 e só volta a fazê-lo no final de 2027.
O que vai decidir isto é a inflação. A inflação anual da zona euro foi de 2,8% em junho, o que representa um abrandamento face aos 3,2% de março, mas continua acima do objetivo de 2% do BCE. Se a energia continuar a pressionar os preços, a subida de setembro fica mais provável.
Nada disto é garantido. É a leitura possível com a informação que existe hoje.
O que fazer com esta pausa
Não tens controlo sobre a Euribor, mas tens seis semanas até à próxima decisão do BCE. É tempo suficiente para fazeres três coisas.
Confirma o teu indexante. Muita gente nem sabe se o crédito está indexado à Euribor a 3, 6 ou 12 meses. Está no teu contrato, ou podes pedir ao banco. Sem saber isto, estás a reagir a notícias que nem sequer se aplicam ao teu caso.
Revê o teu spread. Se contrataste o crédito há vários anos, o spread que tens hoje pode já não ser competitivo face ao que o mercado oferece agora. Vale a pena pedir uma simulação a outro banco antes de assumir que não há nada a fazer. Já expliquei em detalhe quando compensa transferir o crédito habitação para outro banco, e os números às vezes surpreendem.
Ajusta o orçamento antes da revisão chegar. Se sabes que a prestação vai subir na próxima revisão, começa já a libertar essa diferença no orçamento mensal. É mais fácil ajustar aos poucos do que sentir o golpe de repente.
Considera a taxa fixa ou mista, mas com calma. Não é uma decisão para tomar por pânico de uma notícia. Faz as contas com um simulador e percebe se o custo extra da estabilidade compensa para a tua situação. Escrevi um artigo à parte sobre taxa fixa ou variável no crédito habitação, com exemplos práticos para te ajudar a decidir.
Se sentes que a prestação já pesa mais do que devia, vale a pena perceberes se compensa renegociar diretamente com o teu banco antes de procurares outro.
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Este conteúdo tem caráter informativo e não constitui aconselhamento financeiro personalizado. Antes de tomar qualquer decisão sobre o teu crédito habitação, considera consultar um profissional certificado e avaliar a tua situação individual.
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