O impacto económico da proibição das “bets” (o termo brasileiro para as casas de apostas online) ainda ninguém o mediu, porque a medida tem poucos dias. O que existe são estimativas que se contradizem: segundo um estudo da USP citado pelo O Tempo, as apostas tiraram entre 120 e 141 mil milhões de reais à economia brasileira em 2025, e segundo um estudo pago pelo setor, divulgado pelo Viva, pesaram 0,46% do consumo das famílias.
Em Portugal nada foi proibido, por isso o impacto só se pode simular (o que o Brasil proibiu e as regras em vigor em Portugal estão no artigo sobre o que o Brasil proíbe nas “bets” e como estão as apostas em Portugal). Segundo o SRIJ, o regulador do jogo, o imposto sobre o jogo online rendeu ao Estado 353 milhões de euros em 2025, e é esse o número que está em jogo em qualquer cenário.
Em resumo
Segundo o Senado brasileiro, o Governo do Brasil estima perder 1,541 mil milhões de reais de receita fiscal em 2026 com a proibição, e 5,150 mil milhões em 2027. Segundo a USP, as apostas custaram à economia entre 120 e 141 mil milhões de reais em 2025, mas o setor apresenta um estudo que aponta um peso muito menor. Em Portugal, segundo o SRIJ, o imposto do jogo online rendeu 353 milhões de euros em 2025, e uma quebra de 10% da receita das casas de apostas custaria ao Estado cerca de 35 milhões (conta minha, com as hipóteses explicadas abaixo).
O que diz o Governo brasileiro que perde com as “bets”?
Segundo o Senado Notícias, a justificação da Medida Provisória 1.394/2026 traz uma estimativa da equipa económica do Governo: a proibição reduz as receitas tributárias em 1,541 mil milhões de reais em 2026, 5,150 mil milhões em 2027 e 5,330 mil milhões em 2028. A mesma fonte indica que o Governo não conta perder nada com as licenças já concedidas, porque os valores correspondentes foram integralmente pagos.
Esse dinheiro das licenças é um dos pontos em disputa. Segundo o Mercado & Consumo, foram concedidas 85 licenças a 30 milhões de reais cada, 2,55 mil milhões de reais em cinco anos, a medida extingue-as sem devolução nem indemnização e os operadores contestam essa leitura.
O setor movimentava muito dinheiro. Segundo o Economic News Brasil, os brasileiros depositaram 220,6 mil milhões de reais nas plataformas autorizadas em 2025, 183,7 mil milhões voltaram em prémios e bónus levantáveis, e as operadoras ficaram com 36,9 mil milhões de receita. Segundo a mesma fonte, a publicidade das bets investiu 1,44 mil milhões de reais em media em 2025 (dados da Tunad) e cerca de 1 mil milhão de reais chegou aos clubes da Série A. Segundo o Mercado & Consumo, no 1.º semestre de 2026 a receita bruta das operadoras foi de 20,28 mil milhões de reais.
Quanto custaram as “bets” à economia, segundo os estudos?
Aqui as fontes discordam, e importa saber quem fez cada estudo.
Segundo o O Tempo, o Made, o centro de macroeconomia da USP, estima que as apostas reduziram a atividade económica em 120 a 141 mil milhões de reais em 2025, entre 0,9% e 1,1% do PIB. Segundo o mesmo estudo, essa menor atividade custou ao Estado entre 31,1 e 54,8 mil milhões de reais em impostos, e como as plataformas pagaram cerca de 9 mil milhões, o saldo para as contas públicas seria negativo entre 22 e 46 mil milhões. O Economic News Brasil lembra que esta estimativa não é uma transferência comprovada, é uma modelação dos efeitos das apostas sobre outras atividades.
Outras estimativas vão no mesmo sentido, de entidades que representam o comércio. Segundo o Mercado & Consumo, a CNC, a confederação do comércio, calcula uma perda de até 117 mil milhões de reais por ano no faturamento do comércio, e a cooperativa Sicredi, com dados de 1,3 milhões de associados, encontrou uma inadimplência 40% maior entre quem tinha apostado online em 2025. Segundo o Comsefaz, citado pela Agência Brasil, as famílias perderam 62,5 mil milhões de reais líquidos em apostas em 2025.
Do outro lado, segundo o Viva, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, que reúne as principais plataformas, encomendou à LCA Consultoria um estudo que conclui que as apostas pesaram 0,46% do consumo das famílias em 2025, 37 mil milhões de reais, e que o endividamento se explica sobretudo pelo crédito caro de curto prazo, como o rotativo do cartão. Convém ler este estudo sabendo quem o pagou, tal como os do comércio sabendo a quem interessa o consumo.
Há ainda um ponto que os estudos não resolvem. Segundo o Economic News Brasil, proibir não devolve automaticamente à economia o dinheiro que se apostava: pode ir para poupança, para outros consumos ou para operadores clandestinos, e segundo um estudo da LCA e do Instituto Locomotiva, citado pela mesma fonte, 38% a 44% do valor apostado no 1.º semestre de 2026 já passou por operadores clandestinos.
E em Portugal, que dados existem?
Em Portugal, ao contrário do Brasil, existem números oficiais e atuais. Somando os relatórios trimestrais do SRIJ de 2025, o Imposto Especial de Jogo Online rendeu 82,7 milhões de euros no 1.º trimestre, 81,2 no 2.º, 89,8 no 3.º e 99,3 no 4.º, ou seja, 353 milhões de euros no ano, quase 1 milhão por dia (soma e conta minhas). No mesmo ano, a receita bruta das casas de apostas somou cerca de 1 206 milhões de euros, o que dá uma taxa média efetiva de 29% (conta minha). No 2.º trimestre de 2026, segundo o SRIJ, a receita bruta foi de 328,2 milhões de euros e o imposto de 92,1 milhões.
Para onde vai o dinheiro? Segundo o Observador, em 2022 o Placard, da Santa Casa, e o imposto do jogo online representavam 94% do orçamento do IPDJ, o instituto que financia o desporto, e o futebol ficou com a maior fatia. É um dado de 2022, mais antigo do que os restantes, e não encontrei um mais recente.
Os patrocínios das casas de apostas no desporto português não se conseguem quantificar. Segundo o Futebol e Negócios, em 2026/27 há 16 dos 18 clubes da I Liga com uma casa de apostas na camisola, 15 à frente e 1 na manga, e a própria Liga tem uma casa de apostas no nome. O mesmo texto refere que não há valores públicos para estes contratos.
O jogo ilegal também pesa nas contas. Segundo o ECO, o secretário de Estado do Turismo estimou no debate de 17 de setembro que o jogo ilegal vale entre 250 e 500 milhões de euros em Portugal. E segundo o Jornal de Negócios, a APAJO, a associação do setor, diz que cerca de 40% dos jogadores ainda apostam em operadores sem licença, um valor que vem de quem representa os operadores.
E se Portugal limitasse a divulgação das casas de apostas? Um cenário
Isto é um exercício, não uma previsão. Ninguém sabe quanto cairia a receita das casas de apostas se a publicidade e os patrocínios fossem proibidos, e o Brasil mostra como as estimativas variam. O que se consegue fazer é medir a escala do que estaria em causa, partindo de duas hipóteses: que o imposto continua a ser, em média, 29% da receita bruta, e que tudo o resto fica igual.
| Se a receita bruta das casas de apostas caísse… | O imposto do jogo online (353 milhões de euros em 2025) cairia cerca de… |
|---|---|
| 5% | 17,7 milhões de euros |
| 10% | 35,3 milhões de euros |
| 20% | 70,6 milhões de euros |
Estes valores são conta minha, a partir dos números do SRIJ. Ficam de fora os efeitos do outro lado, que são precisamente os que os estudos brasileiros disputam: quanto do dinheiro que deixasse de ser apostado voltaria ao consumo, à poupança ou ao jogo ilegal, e que impostos geraria no caminho. Sobre isso não há dados portugueses, e não vou inventá-los.
O que a comparação com o Brasil permite dizer é que, mesmo num cenário de proibição total, o Governo brasileiro estima perder 5,150 mil milhões de reais em 2027, segundo o Senado Notícias, e que a USP estima que as apostas já custam ao Estado mais do que aquilo que pagam em impostos. Qual dos dois lados tem razão depende de hipóteses que ainda ninguém confirmou.
O que fica de tudo isto?
A economia por si só não decide a questão. Há quem olhe para os 353 milhões de euros e veja um negócio que rende ao Estado e ao desporto, e há quem olhe para os 328,2 milhões de euros que ficaram nas casas de apostas num só trimestre, segundo o SRIJ, e veja dinheiro que saiu do bolso de quem apostou.
Na minha opinião, proibir a divulgação já é um grande passo, e não fecharia as casas de apostas, desde que cumpram a lei. E penso muitas vezes no dinheiro dos amigos que jogam e perdem: ao longo dos anos, esse dinheiro investido dava muito mais frutos.
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Este artigo tem caráter informativo e não constitui aconselhamento financeiro personalizado. Os cenários são exercícios de cálculo e não previsões.
