Clones da Adobe com IA: o que significam para o emprego e a economia

Clones da Adobe com IA: designer a editar uma fotografia ao computador, à noite

Os clones da Adobe com IA não vão acabar com o Photoshop amanhã, mas mostram uma coisa que me preocupa mais do que o futuro de qualquer empresa: se fazer software fica cada vez mais barato, há empregos que vão perder valor, e com menos pessoas a ganhar, há menos consumo. Quando vi a notícia, senti um misto de entusiasmo e preocupação. Entusiasmo pelo que a tecnologia já consegue fazer. Preocupação com o que isso pode fazer aos empregos e, por arrasto, à economia.

Neste artigo explico o que aconteceu, o que estes programas fazem de facto e porque é que, para mim, a pergunta importante não é se a Adobe sobrevive.

O que são os clones da Adobe com IA?

No fim de setembro de 2026, o engenheiro de software Brandon Thomas começou a publicar no GitHub o projeto ArtCraft: um conjunto de aplicações gratuitas e de código aberto que imitam os programas da Adobe. Entre elas estão o PhotoCraft (inspirado no Photoshop), o VectorCraft (Illustrator), o FilmCraft (Premiere Pro) e o LightCraft (Lightroom). Segundo a imprensa que acompanhou o caso, o código foi escrito com a ajuda do Claude, o modelo de IA da Anthropic, na linguagem Rust.

O projeto apresenta o PhotoCraft como uma “reimplementação de raiz”, feita a partir das especificações públicas e do comportamento observado do programa, sem código, sombreadores ou ficheiros da Adobe. Essa é a palavra dos autores, não uma auditoria jurídica.

Poucos dias depois, o mesmo programador lançou também alternativas ao Word, ao Excel e ao PowerPoint (WordCraft, GridCraft e DeckCraft). Foi isto que fez a notícia correr o mundo: em poucas semanas, uma pessoa com IA pôs cá fora versões gratuitas de programas que custaram anos e equipas inteiras a construir.

O PhotoCraft é igual ao Photoshop?

Não. O próprio repositório diz que o PhotoCraft está em “fase alfa inicial” e que ainda não substitui o Photoshop no trabalho profissional diário. Faltam ferramentas, funções de IA generativa e compatibilidade com plug-ins.

Os testes da imprensa especializada encontraram problemas. A Creative Bloq testou as aplicações e descobriu que o FilmCraft não reproduzia certos formatos de vídeo profissional sem os converter primeiro, e que a edição em 4K era lenta. Outros utilizadores relataram falhas em funções básicas de edição e nos atalhos de teclado.

O teste importa porque pôr uma primeira versão a funcionar não custa o mesmo que manter uma aplicação profissional durante anos: corrigir erros, garantir segurança, acompanhar formatos novos e dar apoio a quem paga.

E se isto não estivesse a acontecer só com a Adobe?

Nos videojogos, onde um jogo pode levar anos e milhões a fazer, aconteceu algo parecido no mesmo mês.

A 9 de outubro de 2026, o programador Maurice Heumann publicou o relato de três meses a pôr agentes de IA (Claude Code e Codex) a reconstruir o código de um jogo de tiros. Ele não diz qual é o jogo; a imprensa especializada identificou-o como Call of Duty: Modern Warfare 2, de 2009. Segundo o autor, no fim, 99 % das funções do jogo estavam reconstruídas e 83 % eram idênticas, byte a byte, às do programa original. O código não foi divulgado, por isso estes números não foram confirmados por mais ninguém.

O mais interessante é o que correu mal pelo caminho. Ao fim do primeiro mês, cerca de 80 % do jogo estava “reconstruído” e o jogo até arrancava. Só que o código, apesar de parecer certo, estava errado: tipos trocados, lógica inventada, lógica que desaparecia. Heumann teve de criar um sistema que comparava automaticamente cada função com a original. E os agentes tentaram fazer batota: chegaram a tentar alterar o próprio teste que avaliava o trabalho deles.

A conclusão do autor cabe numa frase: a correção é muito mais importante do que a produtividade. A IA escreveu depressa; o trabalho difícil foi provar que o que escreveu estava certo, e isso exigiu alguém que sabia como o resultado devia ser.

A indústria já está a reagir. A 13 de outubro, a Microsoft anunciou o Xbox Labs, uma equipa para explorar estas novas possibilidades, e no mesmo texto reconhece que jogos antigos estão a ser “rapidamente descompilados e reconstruídos” para correr em equipamentos para que nunca foram feitos. Isso não quer dizer que a Microsoft aceite cópias: o mesmo anúncio diz que continua comprometida com a proteção da propriedade intelectual.

Aqui convém uma nota: nos videojogos, o código é só uma parte. A arte, a música e as personagens têm proteção própria, e reconstruir o código não dá a ninguém o direito de distribuir o jogo.

Fazer software ficou ao alcance de qualquer pessoa

Este caso é o exemplo mais visível de uma coisa que já está a acontecer: hoje, qualquer pessoa sem conhecimento técnico consegue pôr no mercado uma aplicação do estilo SaaS (software vendido por subscrição). Há muitas mais aplicações do que havia, e nota-se algum declínio na qualidade.

Não sou o único a ver isto. Em março de 2026, a Forbes escreveu que a App Store da Apple estava inundada de aplicações de baixa qualidade feitas com IA e que os programadores sérios estavam a pagar o preço, com filas de revisão mais longas. Nesse mesmo mês, a Apple bloqueou atualizações de algumas aplicações que servem para criar outras aplicações com IA.

Uso IA no meu trabalho todos os dias, mas sou técnico. Uso-a para acelerar processos que já conheço e que sei exatamente como devem funcionar. O critério é meu, e o que a IA produz tem de sair com esse critério. É aqui que está a diferença: a IA acelera quem sabe o que está a fazer. Nas mãos de quem não sabe avaliar o resultado, produz mais quantidade, não mais qualidade.

Por isso, acredito que deve haver algum limite. A concorrência é boa, mas um mercado cheio de cópias mal feitas não protege ninguém: nem quem cria, nem quem compra.

Quem ganha se o software ficar mais barato?

À primeira vista, quem usa estas ferramentas.

Imagina uma pequena empresa portuguesa que paga, num exemplo hipotético, 35 € por mês por uma aplicação. São 35 € × 12 = 420 € por ano. Se uma alternativa gratuita fizer tudo o que ela precisa, esses 420 € ficam livres para outra coisa.

O problema é o “se”. Uma alternativa gratuita que falha, perde ficheiros ou obriga a repetir horas de trabalho pode sair mais cara do que a subscrição. Quando comparares, conta também com o tempo de aprendizagem, a compatibilidade com os ficheiros dos teus clientes e a falta de apoio técnico.

Clones da Adobe com IA e o emprego: equipa de uma pequena empresa a trabalhar ao computador

E o que acontece aos empregos?

É aqui que está a minha maior preocupação.

Segundo um estudo da Organização Internacional do Trabalho publicado em maio de 2025, 25 % do emprego mundial está em profissões potencialmente expostas à IA generativa, e nos países de rendimento elevado a percentagem sobe para 34 %. A própria OIT sublinha que é mais provável a IA transformar estes empregos do que eliminá-los, e que “exposto” não quer dizer “vai desaparecer”.

Mas a forma como tenho visto a IA ser aplicada preocupa-me. Se uma empresa faz o mesmo trabalho com menos pessoas, e se isso acontecer em muitas empresas ao mesmo tempo, há pessoas que ficam sem emprego ou a ganhar menos. Com menos rendimento, consomem menos. E com menos consumo, as empresas vendem menos, e a economia sente.

Pensa num designer que passou anos a aprender a técnica. Se uma parte das tarefas dele passa a ser feita em minutos por um programa, essa parte do trabalho perde valor no mercado. Pode ser que ele passe a fazer mais projetos e a concentrar-se nas decisões criativas. Ou pode ser que perca clientes antes de conseguir adaptar-se. As duas coisas vão acontecer, a pessoas diferentes.

Se a Adobe perder clientes, a economia perde?

Não necessariamente. Se os clientes da Adobe conseguirem o mesmo resultado por menos dinheiro, ficam com esse dinheiro para outras coisas: poupar, investir ou gastar noutros negócios. Uma empresa faturar menos não é o mesmo que a economia ficar mais pobre.

O que me preocupa não é a faturação da Adobe. É o cenário em que a produtividade sobe, os ganhos ficam em poucas empresas e muitas pessoas perdem rendimento. Aí, a economia consegue produzir mais, mas há menos gente com dinheiro para comprar o que se produz.

A Adobe está em perigo?

Os números ainda não o mostram. Nos resultados do terceiro trimestre fiscal de 2026, terminado a 28 de agosto e publicados a 10 de setembro, a Adobe apresentou 6,76 mil milhões de dólares de receita, mais 13 % do que no mesmo trimestre do ano anterior, e 27,5 mil milhões de dólares de receita recorrente anualizada.

Mas atenção: esse trimestre fechou antes de os clones aparecerem, por isso não diz nada sobre o efeito deles.

Se investes em ações, fica a lição: uma empresa dominante não é uma empresa sem risco. Vale a pena perceber de onde vem a vantagem dela e se essa vantagem aguenta uma tecnologia nova. É uma das razões para não pôr tudo numa só aposta, como explico no artigo sobre diversificação de investimentos.

Os clones da Adobe com IA são legais?

Depende de como é feito. Na União Europeia, a Diretiva 2009/24/CE permite, em certas condições, que quem tem direito a usar um programa observe e estude o seu funcionamento. E em 2012, no processo SAS Institute contra World Programming, o Tribunal de Justiça da União Europeia decidiu que as funcionalidades de um programa não estão protegidas por direitos de autor; o código está.

Isto não autoriza copiar código, marcas ou o aspeto protegido de um produto, e não resolve eventuais processos contra o ArtCraft. A questão jurídica deste caso continua em aberto.

O que significam os clones da Adobe com IA para quem trabalha em Portugal?

Para pequenos negócios e trabalhadores independentes, ferramentas mais baratas podem ajudar a fazer mais com menos. Uma loja online, um fotógrafo a recibos verdes ou uma agência com três pessoas pagam hoje várias subscrições por mês para editar imagens, vídeo e documentos. Se alternativas gratuitas como o PhotoCraft amadurecerem, parte desse custo pode desaparecer. Mas a escolha deve ser feita com calma: testar primeiro numa tarefa sem risco, confirmar que os ficheiros abrem bem do lado dos clientes e só depois cancelar a subscrição antiga. Mas não chega instalar uma aplicação de IA e esperar que o negócio melhore: é preciso saber onde a aplicar e conseguir avaliar se o resultado tem qualidade.

Para quem trabalha por conta de outrem, a resposta passa pelo mesmo critério que uso no meu trabalho: aprender a usar estas ferramentas sem deixar de saber fazer. Quem sabe como uma coisa deve funcionar usa a IA para ir mais depressa. Quem não sabe fica dependente dela. Já escrevi sobre esse risco no artigo a inteligência artificial está a tornar-nos mais inteligentes ou dependentes?.

A IA vai prejudicar a economia?

Pode prejudicar empresas, empregos e setores inteiros, e é isso que me preocupa. Se a IA criar mais riqueza com menos trabalho, a pergunta que fica é: quem vai ficar com esses ganhos? Se a resposta for “poucas empresas”, e muitas pessoas perderem rendimento pelo caminho, o consumo cai e a economia sente.

Estes clones são só o primeiro exemplo que chegou às notícias. Vale a pena acompanhar o que acontece a seguir, e preparar-te enquanto isso.

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Este artigo é uma análise económica e uma opinião pessoal, com informação disponível até 16 de outubro de 2026. Não constitui aconselhamento financeiro ou de investimento.

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