Brasil proíbe as “bets”: e as apostas online em Portugal?

Número 328,2 milhões de euros em letras brancas e âmbar sobre fundo preto: a receita bruta das casas de apostas em Portugal no 2.º trimestre de 2026, segundo o SRIJ

O Brasil proíbe as “bets” (o termo brasileiro para as casas de apostas online) desde 25 de setembro de 2026: apostas desportivas, casinos online e a publicidade a ambos, tudo de uma vez, segundo a Medida Provisória 1.394/2026. Em Portugal as apostas online continuam legais e licenciadas pelo SRIJ, o regulador, e a lei não mudou. O que mudou foi o ambiente: segundo o ECO, a 17 de setembro, oito dias antes da decisão brasileira, o Parlamento debateu o jogo online e o Governo admitiu apertar as regras da publicidade.

Os números do regulador português ajudam a perceber porque é que o assunto chegou lá. Segundo o relatório do SRIJ do 2.º trimestre de 2026, as casas de apostas licenciadas ficaram com 328,2 milhões de euros, e há 413,7 mil registos de jogadores autoexcluídos.

Em resumo
Segundo o Senado brasileiro, a Medida Provisória 1.394/2026 proíbe a exploração, a oferta e a publicidade de apostas de quota fixa, e o Congresso tem 120 dias para a confirmar. Em Portugal, segundo o SRIJ, o jogo online é legal desde 2015 e a lei é a mesma. Segundo o ECO, nenhuma das propostas do debate de 17 de setembro pretende proibi-lo, e o Governo admite mexer na publicidade. Para o teu orçamento, o número que interessa é a receita bruta das casas de apostas: 328,2 milhões de euros num só trimestre, segundo o SRIJ.

Brasil proíbe as “bets”: o calendário, dia a dia

Segundo o Senado Notícias, a Medida Provisória 1.394/2026 foi publicada a 25 de setembro e proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa em todo o país. Segundo a Agência Brasil, inclui as apostas desportivas e os casinos online, como o chamado jogo do “tigrinho”. Segundo o Senado Notícias, vale também para empresas estrangeiras que ofereçam apostas a brasileiros.

A medida já está em vigor, mas, segundo a Rádio Senado, o Congresso tem 60 dias, prorrogáveis por mais 60, para a converter em lei definitiva. O calendário dos primeiros dias, segundo o Senado Notícias e a Agência Brasil, é este:

DataO que acontece
25 de setembroA medida entra em vigor e ficam proibidos novos depósitos
Até 5 de outubro (23h59)Os apostadores podem levantar o saldo
6 de outubroSites e apps têm de ficar indisponíveis
7 a 14 de outubroAs empresas informam os bancos dos saldos e quem não levantou recebe o dinheiro de volta pelo banco
25 de outubroExtinção formal das autorizações das empresas

Segundo o BPMoney, as empresas têm também até 5 de outubro para retirar a publicidade e os patrocínios.

Em paralelo, segundo o Yogonet, o Governo enviou à Câmara o Projeto de Lei 5.477/2026, com pedido de urgência, que cria crimes: 4 a 6 anos de prisão para quem explorar apostas de quota fixa e 2 a 4 anos para quem as divulgar ou fornecer as plataformas. Segundo o mesmo texto, o apostador fica de fora e não é punido.

Porquê uma medida tão dura?

Segundo a Mattos Filho, uma sociedade de advogados brasileira, as apostas desportivas foram legalizadas em 2018 (Lei 13.756) e a Lei 14.790, de dezembro de 2023, regulou o setor, com o mercado licenciado a arrancar a 1 de janeiro de 2025 e licenças que custavam até 30 milhões de reais. O Governo justifica a medida, segundo a Agência Brasil, com o endividamento das famílias e a saúde mental.

A Agência Brasil cita três números. Segundo o Comsefaz, o comité dos secretários de Fazenda dos estados, os brasileiros perderam 62,5 mil milhões de reais em apostas só em 2025, e o Metrópoles esclarece que é a diferença entre o que apostaram e o que receberam em prémios. Segundo uma pesquisa citada pela agência, 1 em cada 5 alunos (20,4%) dos últimos anos do ensino fundamental e do ensino médio já apostou online, proporção que chega a quase metade (49,7%) no 3.º ano do ensino médio. E segundo a agência, o Presidente Lula disse que as “bets” são “como um câncer”.

Os danos nas famílias não me são distantes: o meu pai, que além do álcool também jogou, não o fez a um nível muito alto, mas o suficiente para lhe somar mais dívida. O Brasil decidiu proibir tudo, e a decisão é dele. Na minha opinião, proibir a divulgação já é um grande passo, e não fecharia as casas de apostas.

E do outro lado?

Segundo a CNN Brasil, os clubes de futebol queixam-se do efeito imediato e sem período de transição, as associações do setor contestam a medida e lembram que as empresas pagaram licenças seguindo as regras do próprio Governo, e o Governo espera uma batalha dura no Congresso, sobretudo depois das eleições de 4 de outubro. Segundo o BPMoney, os patrocínios de casas de apostas na Série A somaram 1,03 mil milhões de reais em 2025. Segundo a Agência Brasil, há quem avise que proibir empurra os apostadores para sites ilegais, e o Governo responde com mais fiscalização e o bloqueio de sites e de contas bancárias usadas para apostar.

As apostas online são legais em Portugal?

São, desde 2015. Segundo o Regime Jurídico dos Jogos e Apostas Online (Decreto-Lei 66/2015, publicado no Diário da República), a regulação e a fiscalização ficaram com o SRIJ, o Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos, do Turismo de Portugal. Só podem explorar jogo online as entidades com licença: segundo o SRIJ, a 30 de junho de 2026 eram 17 entidades, com 30 licenças.

A opção de 2015 foi regular. Segundo os artigos 37.º, 40.º e 42.º do RJO, o jogador tem de se registar com identificação verificada e de ser titular da conta de pagamento que indica, a conta de jogo não pode ficar com saldo negativo, e as casas de apostas estão proibidas de conceder empréstimos aos jogadores.

Quanto dinheiro se aposta e se perde em Portugal?

Os números desta secção são do relatório do SRIJ sobre o 2.º trimestre de 2026, o mais recente:

Indicador (abril a junho de 2026)Valor
Receita bruta das casas de apostas328,2 milhões de euros (mais 14,4% do que no ano anterior)
Imposto Especial de Jogo Online cobrado92,1 milhões de euros
Volume de apostas desportivas515,6 milhões de euros
Volume de apostas em jogos de fortuna ou azar (casino online)5 694,8 milhões de euros
Registos de jogadores4,9 milhões
Registos com pelo menos uma aposta no trimestre1,2 milhões
Registos autoexcluídos413,7 mil (mais 26,8% do que no ano anterior)

Dois valores que convém não confundir. Segundo o SRIJ, o volume de apostas soma tudo o que foi apostado, incluindo prémios que voltam a ser apostados e bónus, por isso conta o mesmo dinheiro várias vezes. A receita bruta é, nas palavras do relatório, a diferença entre o total apostado e os prémios pagos, ou seja, o dinheiro que ficou nas casas de apostas. É o número que interessa a quem faz contas, e dá cerca de 3,6 milhões de euros por dia. Dividida pelos 1,2 milhões de registos que apostaram no trimestre, são cerca de 270€ por registo (conta minha: é uma média, e um jogador pode ter registos em vários operadores).

Segundo o SRIJ, o casino online dá 61,9% da receita bruta e as apostas desportivas 38,1%, e as máquinas (slots) pesam 81,6% das apostas em jogos de fortuna ou azar. No futebol, que o relatório coloca em 69,9% das apostas desportivas, o Campeonato do Mundo de 2026 concentrou 28,3% do volume no trimestre. Os autoexcluídos já são 8,4% dos registos, segundo o mesmo relatório.

Quem joga é gente nova. Segundo o SRIJ, 76,5% dos registos são de pessoas com menos de 45 anos, e 36,2% dos novos registos do trimestre são de jovens entre os 18 e os 24 anos. Segundo a presidente do ICAD, Joana Teixeira, citada pelo Diário de Notícias em janeiro de 2026, 1,3% da população portuguesa mostra sinais de risco e 0,6% evidencia dependência do jogo. A mesma notícia refere que, em 2024, 16% dos jovens de 18 anos apostavam online, segundo o Dia da Defesa Nacional.

Os brasileiros pesam nestas contas: segundo o SRIJ, os registos de nacionalidade brasileira são 46,1% dos registos de estrangeiros, que são 6,4% do total. Dá cerca de 145 mil registos, perto de 3% (cálculo meu a partir das percentagens do relatório). A medida brasileira vale para quem está no Brasil, segundo o Senado Notícias, e quem vive em Portugal, seja de que nacionalidade for, continua sujeito à lei portuguesa.

Que regras existem hoje em Portugal?

Brasil (desde 25/09/2026)Portugal (hoje)
Jogo onlineProibido, até o Congresso decidirLegal, só com licença do SRIJ
PublicidadeProibidaPermitida, com limites
Sites sem licençaBloqueio de sites e de contas bancáriasNotificações de encerramento e pedidos de bloqueio
Quem apostaNão é punido, segundo o projeto de leiPode autoexcluir-se de todos os operadores

Publicidade. Segundo o artigo 21.º do Código da Publicidade, a publicidade a jogos e apostas tem de ser socialmente responsável: não pode apelar à obtenção fácil de um ganho, sugerir sucesso ou êxito social por efeito do jogo, nem encorajar práticas excessivas. Está proibida a que se dirija a menores ou os use na mensagem, a que aparece dentro de escolas e a que aparece a menos de 250 metros em linha reta de escolas e outras infraestruturas para menores (a regra dos 250 metros não se aplica aos jogos sociais do Estado). As empresas de jogo também não podem ser associadas a qualquer menção publicitária a empréstimos. Segundo o mesmo diploma, quem fiscaliza é o SRIJ, que tem um resumo das regras no seu site.

Menores. Segundo o artigo 6.º do RJO, a prática de jogos e apostas online está proibida aos menores.

Autoexclusão. Segundo o artigo 39.º do RJO, podes pedir diretamente no site do SRIJ e ficas impedido de jogar em todos os operadores licenciados. Dura no mínimo 3 meses, e se não indicares uma data é por tempo indeterminado; para terminar mais cedo, o pedido só produz efeito ao fim de um mês. Segundo a iGaming Business, o SRIJ passou a ter um portal central de autoexclusão a 8 de abril de 2026.

Jogo ilegal. Segundo o relatório do SRIJ, desde 2015 foram enviadas 1 834 notificações de encerramento a operadores ilegais, pedido o bloqueio de 3 043 sites e feitas 77 participações ao Ministério Público. Segundo o secretário de Estado do Turismo no debate, citado pelo ECO, o jogo ilegal vale entre 250 e 500 milhões de euros em Portugal.

O que está em cima da mesa no Parlamento?

Segundo a Renascença, o Parlamento debateu o tema a 17 de setembro por pedido do Livre, que propõe proibir figuras públicas e influenciadores de publicitar jogo, avisos obrigatórios sobre o risco de adição e a idade mínima, limites de tempo e de dinheiro apostado, o fim dos bónus e a tributação em IRS do saldo líquido ganho nos jogos online. Segundo o Observador, o Livre quer também proibir os patrocínios e diz que praticamente todas as equipas da Primeira Liga são patrocinadas por casas de apostas. Concordo com a proibição dos patrocínios e iria mais longe: proibia toda a divulgação das casas de apostas, sabendo o mal que o jogo faz à saúde pública. Um clube de futebol a promover as apostas no seu próprio desporto parece-me ainda pior. As casas podem continuar abertas no país em questão, desde que cumpram a lei, para quem quer jogar; o que não devem é ser divulgadas, como em vários países já acontece com o tabaco e o álcool.

Segundo o ECO, o Governo, pela voz do secretário de Estado do Turismo, Pedro Machado, admitiu alterar o Código da Publicidade nesta matéria, com três objetivos: reforçar a proteção dos menores, adaptar as regras ao digital e dar mais coerência à aplicação do regime. Prevê também restrições a figuras públicas com notoriedade, para que o jogo não fique associado a referências sociais. O mesmo debate trouxe um número: este ano foram detetadas 867 mensagens publicitárias de plataformas ilegais, ligadas a 25 influenciadores (11 identificados), e as denúncias do SRIJ deram origem a 16 processos de averiguação.

Ainda segundo o ECO, PS, Chega e PSD levaram propostas próprias, entre elas uma autoexclusão mais simples, o bloqueio de pagamentos a plataformas ilegais e uma lista pública das entidades sem licença, e há consenso em que é preciso uma regulação mais forte. Segundo a The Gamblest, o ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, anunciou em junho legislação nova para o verão, e segundo a Renascença, à data do debate o texto ainda não era conhecido.

E se apostar já está a pesar no orçamento?

Os 328,2 milhões de euros do trimestre, segundo o SRIJ, ficaram nas casas de apostas, e ninguém precisa de ter vergonha por ter contribuído para eles. Tenho amigos a jogar e a perder imenso dinheiro: só falam quando ganham, e quando os confronto admitem que perdem mais do que ganham. Esse dinheiro, ao longo dos anos, dava muito mais frutos investido. O que interessa é o que fazes a partir daqui, conforme a tua situação.

Se apostas por entretenimento, trata o valor como qualquer despesa supérflua do orçamento familiar: um montante fixo por mês, que aceitas não recuperar, fora da renda, das prestações e do fundo de emergência. Se já foste buscar dinheiro dessas contas para apostar, o limite deixou de funcionar.

Se sentes que perdeste o controlo, a autoexclusão no SRIJ bloqueia todos os operadores licenciados de uma vez. Segundo o Executive Digest, o ICAD abriu em junho, em Lisboa, a primeira unidade pública dedicada ao jogo a dinheiro, que acompanhou 782 pessoas com perturbação de jogo em 2025, mais 118% do que as 358 de 2023, e o acesso faz-se por referenciação do SNS ou de outras unidades do ICAD.

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Este artigo tem caráter informativo e não constitui aconselhamento financeiro ou jurídico personalizado. Se jogar já te causa dificuldades, procura apoio profissional.

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