Seguros em Portugal: quais precisas mesmo e onde estás a pagar a mais

Os seguros são a despesa que mais gente paga sem saber ao certo o que está a comprar. Assina-se no balcão, o valor entra por débito direto, e passam-se dez anos sem ninguém abrir a apólice.

O resultado é quase sempre o mesmo: pagas a mais por coberturas que não usas, e descobres as exclusões precisamente no dia em que precisas.

Este guia sobre seguros em Portugal serve para arrumar isso. Quais são obrigatórios, quais valem a pena mesmo sem serem obrigatórios, e onde está o dinheiro que a maioria das famílias portuguesas deixa em cima da mesa.

Seguros em Portugal, parte 1: o único obrigatório por lei

Seguro automóvel de responsabilidade civil. Se tens carro, é obrigatório. Cobre os danos que causas a terceiros, não os teus.

Tudo o resto que te vendem em cima disto é opcional: danos próprios, quebra isolada de vidros, assistência em viagem, veículo de substituição, proteção do condutor.

A pergunta certa não é “quero estar protegido?”, que responde sempre sim. É esta: se o carro fosse perdido amanhã, conseguias substituí-lo sem crédito? Se sim, os danos próprios provavelmente não compensam num carro já com alguns anos. Se não, provavelmente compensam.

Há um detalhe que muita gente ignora: a franquia. Um seguro com prémio baixo e franquia alta pode sair-te caro no dia do sinistro. Compara sempre os dois números juntos, nunca só o prémio.

Parte 2: os que não são obrigatórios por lei, mas são exigidos na prática

Seguro de vida associado ao crédito habitação

Este é o mais importante deste guia, porque é onde está a maior poupança não aproveitada em Portugal.

Legalmente, não és obrigado a ter seguro de vida para comprar casa. Na prática, os bancos condicionam o crédito a isso, o que dá no mesmo. É um dos seguros em Portugal onde mais dinheiro se perde por inércia.

Mas há uma coisa que a lei garante e que muita gente desconhece. O Decreto-Lei n.º 222/2009 estabelece que tens o direito de contratar o seguro de vida junto da seguradora da tua preferência, e não da que o banco te propõe. Este direito aplica-se em dois momentos: quando contratas o crédito, e ao longo de toda a vigência do contrato.

Ou seja: podes trocar de seguradora sem trocar de banco e sem mexer no crédito.

A mesma legislação obriga ainda a que o capital seguro corresponda ao montante em dívida, com atualização automática à medida que vais pagando, e que o prémio reflita essa atualização. Vale a pena confirmares se isto está a acontecer na tua apólice, porque se o capital seguro não estiver a descer com a dívida, estás a pagar por cobertura que já não precisas.

Sobre a poupança possível: os intermediários especializados em transferências de seguro de vida publicitam poupanças que podem chegar aos 60%. Convém teres presente que quem divulga estes números vive de fazer essas transferências, por isso trata-os como ordem de grandeza possível e não como garantia. Ainda assim, o princípio mantém-se: uma apólice contratada há dez anos no balcão do banco raramente é a mais competitiva do mercado hoje.

O senão a verificar antes de mudar: alguns bancos aplicam bonificação de spread a quem contrata o seguro com eles. Se transferires, o spread pode subir. Faz a conta completa, poupança no prémio menos aumento na prestação, antes de decidires. Às vezes compensa, às vezes não.

E vale a pena olhares para além do preço: coberturas, exclusões e a diferença entre invalidez absoluta e definitiva e invalidez total e permanente mudam bastante o que a apólice cobre na prática.

Se estás a comparar propostas de crédito, este custo também entra na conta. Expliquei no guia do crédito habitação porque é que a TAEG, e não a taxa de juro, é o número a comparar, e os seguros são parte da razão.

Seguro multirriscos habitação

Para imóveis em propriedade horizontal, a cobertura de incêndio é obrigatória. O multirriscos vai além disso e cobre tipicamente danos por água, fenómenos da natureza, responsabilidade civil e, consoante a apólice, o recheio.

Tal como no seguro de vida, o banco propõe o dele, mas podes escolher outro desde que garanta cobertura equivalente.

O erro mais comum aqui é o capital seguro desatualizado. Se seguraste a casa há quinze anos e nunca atualizaste, o valor pode estar muito abaixo do custo de reconstrução atual, e nesse caso a seguradora pode aplicar uma redução proporcional na indemnização.

Seguros em Portugal, parte 3: os facultativos que fazem diferença

Seguro de saúde

Não é obrigatório e Portugal tem SNS. A questão real é o tempo de espera para consultas de especialidade e exames, e a possibilidade de escolher.

O que confirmar antes de assinar:

  • Período de carência, o tempo até poderes usar cada cobertura
  • Doenças pré-existentes, que costumam estar excluídas
  • Copagamentos, o valor que pagas em cada ato mesmo com seguro
  • Rede convencionada na tua zona, porque uma rede grande a nível nacional pode ser pequena onde vives
  • Limites anuais por tipo de cobertura

Um seguro de saúde barato com carências longas, rede fraca e limites baixos pode dar-te menos do que imaginas exatamente quando precisas.

Seguro de vida autónomo (fora do crédito)

Diferente do seguro do crédito habitação. Este serve para proteger quem depende de ti financeiramente.

A pergunta que define se precisas: se morresses amanhã, alguém ficava em dificuldade financeira? Se tens filhos menores, cônjuge dependente do teu rendimento, ou familiares a cargo, provavelmente sim. Se vives sozinho e ninguém depende de ti, provavelmente não.

Parte 4: seguros em Portugal, onde as famílias pagam a mais

Cinco padrões que se repetem.

Nunca comparar depois de assinar. Os seguros renovam automaticamente e o prémio vai subindo. Uma apólice de há dez anos raramente está competitiva.

Coberturas duplicadas. Assistência em viagem no seguro automóvel, no cartão de crédito e no seguro de saúde, tudo ao mesmo tempo. Estás a pagar três vezes pela mesma coisa.

Capital seguro desajustado. Para mais na habitação antiga, para menos quando a casa valorizou. Ambos custam dinheiro, um em prémio, outro em indemnização.

Aceitar o seguro do banco sem questionar. É o caminho de menor resistência e é onde está a maior fatia da poupança perdida.

Comprar pelo prémio, ignorando franquias e exclusões. O seguro mais barato pode ser o mais caro no dia em que precisas dele.

Seguros em Portugal: o que fazer, na prática

Faz um inventário. Lista todos os seguros que pagas, o prémio anual de cada um, e a data de renovação. Muita gente descobre aqui apólices que já não faz ideia de ter.

Marca as renovações no calendário, com 45 dias de antecedência. É a janela para comparar antes da renovação automática.

Pede simulações para os dois maiores, que são tipicamente o de vida do crédito habitação e o automóvel. É onde está o dinheiro. Podes confirmar se um mediador está registado na ASF, a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões.

Lê as exclusões antes das coberturas. As coberturas dizem-te o que a apólice promete; as exclusões dizem-te o que ela não faz. A segunda lista é a que interessa no dia do sinistro.

E enquadra isto no orçamento como despesa anual, não mensal, porque muitos seguros pagam-se de uma vez e apanham as pessoas desprevenidas. Expliquei como tratar despesas anuais no guia de orçamento familiar.

Os seguros são das poucas despesas fixas onde uma tarde de trabalho pode poupar centenas de euros por ano.
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Este conteúdo tem caráter informativo e não constitui aconselhamento em matéria de seguros. Cada apólice tem condições próprias e cada situação familiar exige avaliação individual. Confirma sempre as condições gerais e especiais antes de contratar ou transferir um seguro.

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