Finanças para casais: como dividir as despesas sem discussões (com exemplo)

Finanças para casais: dividir as despesas a dois à mesa da sala

Nas finanças para casais não há um modelo certo. Há três formas de organizar o dinheiro a dois, e a melhor é a que os dois escolhem juntos e revêem uma vez por mês. Quando os ordenados são diferentes, dividir as despesas da casa em proporção ao que cada um ganha costuma pesar menos do que dividir a meias. Mais abaixo tens as contas feitas para um casal em que um ganha 1 600 € e o outro 1 000 €.

Nas finanças para casais, antes do modelo há uma conversa a ter. E antes da conversa, ajuda perceber porque é que ela custa tanto.

Porque é que o dinheiro gera discussões num casal?

Porque cada um traz de casa uma forma diferente de lidar com ele.

O psicólogo Brad Klontz chama-lhes guiões de dinheiro: crenças que se formam na infância e passam de geração em geração dentro das famílias. Quem cresceu numa casa onde se poupava ao cêntimo pode ver como irresponsáveis gastos que para o outro são normais. Quem cresceu numa casa onde se gastava tudo pode sentir a poupança do parceiro como um castigo.

Nenhum dos dois está errado. Estão a repetir coisas diferentes. Muitas discussões sobre um jantar fora ou uma compra online são, no fundo, dois guiões a chocar. Quando a tensão já pesa na relação, escrevi sobre isso em o dinheiro pode destruir a relação?

Finanças para casais: a conversa que têm de ter

É o primeiro passo das finanças para casais. Escolham um momento calmo, longe de uma discussão ou de uma compra que correu mal. Uma tarde de fim de semana serve. Não precisam de resolver tudo nesse dia.

O que cada um põe em cima da mesa:

  • O ordenado líquido de cada um
  • As dívidas de cada um: créditos, cartões, empréstimos à família, com o valor em dívida e a prestação
  • O que cada um tem guardado
  • O que cada um quer para os próximos anos: casa, filhos, uma viagem, mudar de emprego

As dívidas são o ponto mais sensível. Uma dívida escondida é o maior risco que um casal pode correr com o dinheiro, porque quando aparece mexe com a confiança e com as contas ao mesmo tempo. O mapa de dívidas do casal inclui as dívidas das duas pessoas, mesmo as que vêm de antes da relação.

Falem na primeira pessoa. “Eu fico preocupado quando o mês acaba e não sobra nada” abre a conversa. “Tu gastas demais” fecha-a. A primeira frase fala do que tu sentes, e ninguém se pode defender disso. A segunda é uma acusação, e a resposta natural é defender-se.

Finanças para casais

Finanças para casais: conta conjunta ou separada?

Há 3 modelos para organizar as finanças para casais. Nenhum é melhor do que os outros: depende de como cada um lida com o dinheiro e do que os dois combinam.

1. Tudo junto

Os dois ordenados entram numa conta conjunta e todas as despesas saem dali, as da casa e as de cada um.

Funciona quando os dois têm hábitos parecidos e confiam um no outro sem precisar de ver cada movimento. O risco é a falta de autonomia: cada compra pessoal fica à vista e pode virar tema de conversa.

2. Conta conjunta para a casa, contas individuais para o resto

Cada um transfere um valor combinado para uma conta conjunta, e é dessa conta que saem as despesas da casa: renda ou prestação, contas, supermercado. O que fica em cada conta individual é de cada um.

Equilibra o que se partilha com a autonomia de cada um, e é o modelo onde a forma de dividir (a meias ou proporcional) pesa mais.

3. Tudo separado, despesas divididas

Não há conta conjunta. Cada um paga uma parte das despesas: um a renda, o outro o supermercado e as contas, por exemplo.

Dá muita autonomia, mas exige atenção. Com o tempo, é fácil um dos dois acabar a pagar mais sem que ninguém tenha decidido isso.

Conta conjunta: solidária, conjunta ou mista?

Quando abrem uma conta em nome dos dois, o banco pergunta como é que ela se movimenta. Segundo o Portal do Cliente Bancário do Banco de Portugal, há três formas:

  • Solidária: qualquer um dos titulares movimenta a conta sozinho. É a mais prática para as despesas do dia a dia.
  • Conjunta: cada movimento precisa da assinatura de todos os titulares.
  • Mista: as regras são as que os titulares combinarem com o banco.

A forma escolhida pode mudar mais tarde, a pedido dos titulares e com acordo do banco. E se a relação acabar, o banco não pode cobrar comissões para alterar a titularidade da conta em caso de divórcio, separação ou fim da união de facto.

Como dividir as despesas quando um ganha mais do que o outro?

Nas finanças para casais com ordenados diferentes, esta é a decisão que mais muda o fim do mês de cada um. Há duas formas de dividir: a meias, ou em proporção ao ordenado de cada um. As contas mostram a diferença.

A Inês e o Tiago são um exemplo, com valores hipotéticos. A Inês recebe 1 600 € líquidos e o Tiago 1 000 €. Juntos, 2 600 €. As despesas da casa somam 1 300 € por mês: renda, luz, água, gás, internet e supermercado.

Na divisão proporcional, a Inês ganha 1 600 € de 2 600 €, ou seja 61,5% do total, e o Tiago 38,5%. Cada um contribui com essa percentagem das despesas da casa.

A meiasProporcional
A Inês põe na conta conjunta650 €800 € (1 300 € × 61,5%)
O Tiago põe na conta conjunta650 €500 € (1 300 € × 38,5%)
Fica para a Inês950 €800 €
Fica para o Tiago350 €500 €

A meias, o Tiago entrega 65% do ordenado à casa e a Inês 41%. Na proporcional, os dois entregam 50% e ficam com 50% para as despesas pessoais e para guardar. A meias parece justo na conta da casa, mas no fim do mês um tem quase três vezes mais do que o outro para o resto da vida.

Nenhuma das formas é obrigatória. Nas finanças para casais, o que importa é que a escolha seja dos dois, feita com as contas à frente.

O dinheiro de cada um, sem explicações

Seja qual for o modelo de finanças para casais que escolham, cada pessoa deve ter uma parte para gastar sem dar explicações a ninguém. Um café com os amigos, um livro, uma peça de roupa. O valor combina-se entre os dois, de acordo com o que o orçamento permite.

Isto evita a parte mais desgastante da vida a dois com dinheiro, que é ter de justificar cada compra. Saber a situação do casal é uma coisa. Pedir autorização para cada gasto é outra, e ninguém aguenta isso muito tempo.

A reserva de emergência do casal

Se a casa depende de dois ordenados e um deles para, por doença, desemprego ou uma licença, o outro não chega para tudo. É para isso que serve uma reserva do casal, numa conta à parte da conta conjunta.

Para quem tem contrato estável, a meta são 3 meses de despesas essenciais. No caso da Inês e do Tiago, só as despesas da casa somam 1 300 € por mês, por isso a reserva do casal seria de 3 900 € (1 300 € × 3). Se um de vocês trabalha a recibos verdes, precisam de mais. Sobre quanto guardar e onde, tens o artigo do fundo de emergência.

A ordem de prioridades é a mesma que numa pessoa sozinha: primeiro as dívidas caras de qualquer um dos dois, depois a reserva, e só depois investir.

Como manter as finanças do casal organizadas?

Com uma conversa por mês, sempre no mesmo dia, de 30 minutos. É a revisão mensal, feita a dois:

  1. Ver o que entrou e o que saiu da conta conjunta
  2. Comparar com o que tinham planeado
  3. Confirmar que as transferências para a conta conjunta e para a reserva saíram
  4. Decidir um ajuste para o mês seguinte, se for preciso

Uma vez por ano, ou sempre que a vida muda (um filho, um emprego novo, uma casa), revejam o modelo. O que fazia sentido aos 28 anos pode não fazer aos 35.

Para montarem o orçamento da casa, o guia do orçamento familiar tem o processo completo.

Os erros que mais estragam as finanças para casais

Juntar o dinheiro sem combinar nada. Abrir uma conta conjunta sem decidir quanto entra, de quem, e para quê. Cada um fica com uma ideia diferente do que foi combinado.

Esconder dívidas ou gastos. É o erro que mais pesa, porque mexe com a confiança e não só com o dinheiro.

Se as discussões sobre dinheiro já estão a pesar na relação mais do que nas contas, um terapeuta de casal pode ajudar a desbloquear o que uma folha de Excel não resolve.

Resumo

Nas finanças para casais, o modelo importa menos do que a conversa. Ponham os números dos dois em cima da mesa, escolham juntos como dividir as despesas, deixem a cada um uma parte sem explicações e revejam tudo 30 minutos por mês. Se os ordenados forem diferentes, façam as contas à divisão proporcional antes de decidirem a meias.

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Este conteúdo tem fins educativos e não substitui aconselhamento financeiro ou terapêutico profissional. Cada situação é única.

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