A Ventus Energy não faliu. Desde agosto de 2026 está numa reorganização judicial na Estónia, e a votação dos credores sobre o plano apresentado fechou a 12 de outubro. À data em que escrevo, o resultado ainda não é público. Os levantamentos estão desativados desde 13 de agosto e não há um calendário público para os investidores receberem o dinheiro de volta.
Se investiste na Ventus Energy e queres perceber em que ponto estás, este artigo põe a história por ordem, explica o que cada fase quer dizer e diz o que podes fazer enquanto esperas. Escrevo como credor, com dinheiro lá, e por isso com um limite: o plano de reorganização é confidencial e não vou descrever nada do que lá está.
Atualizado a 15 de outubro de 2026. Volto a atualizar quando o resultado da votação e a decisão do tribunal forem públicos.

Índice
O que aconteceu à Ventus Energy, por ordem
Esta é a sequência, com as datas dos comunicados e das decisões públicas.
| Data (2026) | O que aconteceu |
|---|---|
| 5 de maio | A BaFin, o regulador financeiro alemão, ordena que a Ventus cesse e liquide sem demora o negócio de depósitos e devolva os fundos |
| 13 de maio | A Ventus escreve aos investidores que os empréstimos alemães estão “temporariamente indisponíveis” e que mantém um “diálogo construtivo com as autoridades” |
| 25 de maio | A Paysera bloqueia os pagamentos de saída das contas da Ventus |
| 11 de junho | A Ventus anuncia uma reestruturação supervisionada por tribunal. Juros e Early Exit ficam suspensos |
| 30 de julho | O pedido de reestruturação é entregue ao tribunal. Tinha sido prometido em duas semanas e demorou sete |
| 13 de agosto | Os pedidos de levantamento pendentes são cancelados e os novos ficam desativados |
| 25 de agosto | A Ventus informa que o tribunal de Harju iniciou formalmente a reorganização e nomeou Kristo Teder como assessor. Os juros deixam de ser calculados |
| 28 de agosto a 14 de setembro | Cada credor confirma ou contesta o valor do seu crédito |
| 24 de setembro | O plano fica disponível para os credores e a votação abre |
| 12 de outubro | Fecha a votação |
O que começou como uma questão regulatória, ligada a uma regra bancária alemã, transformou-se em bloqueios de pagamentos. A BaFin concluiu que a Ventus aceitou fundos de investidores na Alemanha, por contratos de empréstimo, sem a autorização que a lei bancária alemã exige. Em 22 de maio confirmou que a ordem é executável de imediato, mas ainda não é definitiva. Também o regulador da Letónia levantou a questão da licença. Podes ler a decisão da BaFin no site do regulador.
Quando falei da Ventus Energy pela primeira vez no canal, nada disto era público. Fui contando a história à medida que acontecia, com dinheiro meu lá dentro.
No primeiro vídeo, de junho, conto o que aconteceu da ordem da BaFin até ao anúncio da reestruturação, e os sinais que eu próprio ignorei:

No segundo, de agosto, falo do fundador e da ligação à Crowdestor, do pedido entregue ao tribunal semanas depois do prometido e do email que cancelou os levantamentos:

No terceiro, de setembro, explico a abertura do processo no tribunal de Harju e o prazo para confirmar ou contestar os créditos:

A Ventus Energy faliu?
Não. Uma reorganização judicial e uma falência são processos diferentes. Na reorganização, a empresa continua a funcionar, um assessor nomeado pelo tribunal acompanha o processo e os credores votam um plano para reorganizar as dívidas. Na falência, a empresa deixa de funcionar e os ativos são vendidos para pagar aos credores.
Na Ventus Energy, o assessor foi nomeado pelo tribunal e não pela empresa. Isto conta: até agosto, todos os números sobre os ativos vinham da própria Ventus. Em junho, por exemplo, a empresa passou de ativos avaliados em 193 milhões de euros para “mais de 100 milhões”, numa chamada com investidores. Com um assessor nomeado pelo tribunal, há pela primeira vez alguém de fora com a função de verificar.
Enquanto a reorganização decorre, os juros deixaram de ser calculados e o valor de cada crédito ficou fixado a 25 de agosto.
Em que ponto está o processo agora?
A 24 de setembro, o plano ficou disponível no portal para os credores e a votação abriu. A pergunta era uma só: aprovas o plano proposto, sim ou não? A votação fechou a 12 de outubro e o resultado ainda não foi tornado público.
Para o plano ser adotado, precisa de reunir uma maioria alargada, contada pelos credores e pelo valor dos créditos. Depois, o tribunal tem de o confirmar. Se passar e for confirmado, vale para todos os credores, incluindo os que votaram não. Por isso o voto de cada pessoa, sozinho, quase nunca decide, mas somado aos outros decide tudo.
O plano é confidencial. Os credores têm acesso a ele no portal e não o podem partilhar, por isso não vou descrever nenhum dos seus termos, nem sugeri-los por outras palavras. O que se pode dizer é o que o assessor escreveu no aviso que enviou antes da votação.
O que diz o assessor no aviso preliminar?
O aviso, assinado por Kristo Teder, está disponível no site da Ventus e diz três coisas que convém conhecer.
A primeira é que a reorganização se tornou necessária também porque a empresa não conseguiu concluir um refinanciamento com um banco, e o assessor atribui parte do problema a informação negativa que um terceiro terá passado ao financiador. A segunda é que compara a reorganização com a falência e escreve que uma venda acelerada dos ativos, em falência, reduziria bastante o valor disponível para os credores. A terceira é que pede aos credores que, se receberem informação negativa de terceiros, a verifiquem com ele ou com a empresa antes de tirar conclusões, e acrescenta que as críticas não devem ser ignoradas.
Lê isto com duas ideias na cabeça. O aviso é a posição do assessor, não uma verificação independente dos argumentos. E o próprio assessor diz que trabalhou de perto com a Ventus e com os consultores dela na preparação do plano. O pedido para verificar a informação, esse, é bom: verifica sempre na fonte, venha a informação da empresa ou de um blog, e isso inclui este artigo.
Posso levantar o meu dinheiro da Ventus Energy?
Para já, não. A Ventus suspendeu o Early Exit, o mecanismo que permitia vender a tua posição a outros investidores, em junho. A 13 de agosto cancelou todos os pedidos de levantamento pendentes e desativou os novos. Os valores voltaram às carteiras dos investidores, mas o saldo da carteira é um número no ecrã e não dinheiro que possas levantar: a própria empresa diz que está a resolver uma restrição numa conta Paysera.
Quanto tempo vai demorar? Não existe um calendário público. O que vai definir os prazos é o plano, se for aprovado e confirmado pelo tribunal, e esse é confidencial.
Porque é que diversificar projetos não protege da plataforma?
Quando investi na Ventus Energy, sabia que era risco elevado. Retornos acima dos 15% ao ano não existem sem risco proporcional, a plataforma era recente e sair antes do prazo dependia de haver compradores. Mas o problema não surgiu num projeto. Surgiu na plataforma. Uma ordem de um regulador estrangeiro e uma conta de pagamentos bloqueada afetam todos os projetos ao mesmo tempo, por muito diferentes que sejam. É a diferença entre risco de projeto e risco de plataforma.
O que eu fiz: investi na Ventus como dinheiro de risco, que tinha capacidade de perder, e não como fundo de emergência nem como poupança de que precisasse. Hoje tenho mais de 1 300€ parados, juros incluídos, e não sei quanto vou recuperar. O maior acionista da Ventus, Jānis Timma, esteve antes ligado à Crowdestor, outra plataforma de crowdlending. Essa ligação não estava visível quando investi, nem quando falei da Ventus no canal. Contei isso num dos vídeos.
A lição prática é esta: diversificar entre projetos não protege da plataforma, porque todos os projetos estão atrás da mesma porta. Se tens todo o dinheiro de crowdlending numa só plataforma, o risco que a Ventus está a mostrar é um que corres por inteiro. Repartido por plataformas com históricos e estruturas diferentes, o mesmo problema numa delas deixa de ser uma catástrofe. Este é o caso de uma plataforma, e não um veredicto sobre o crowdlending inteiro. Para perceberes como funciona, tens o guia sobre crowdlending e o artigo sobre o erro de diversificação que muitos investidores cometem. E, antes de qualquer investimento com risco, vale a pena ter um fundo de emergência que não dependa dele.
O que podes fazer enquanto esperas?
Se és credor da Ventus, três coisas ajudam, qualquer que seja a tua decisão:
- Guarda tudo. Extratos, comprovativos de transferência, capturas de ecrã da tua conta e os emails da Ventus e do assessor. Se um dia precisares, é isso que faz diferença.
- Acompanha o portal e os emails do assessor. É por aí que chegam o resultado da votação e a decisão do tribunal. Escreve as perguntas que tiveres e envia-as ao assessor ou ao grupo oficial dos credores.
- Fala com um advogado se o valor for relevante para ti. A votação já fechou, mas o que acontece ao teu crédito a seguir depende do resultado e da decisão do tribunal.
Não há decisão certa para todos. Cada credor decide com o valor que tem lá, a tolerância ao risco que tem e aquilo que leu. O que posso fazer é manter este artigo atualizado e contar o que for público.
Na comunidade do Coach das Finanças, no WhatsApp, conto primeiro as novidades da Ventus e explico cada decisão que tomo na minha carteira. É gratuita.
